Envelhecimento feminino e masculino: Entenda os impactos no corpo, cérebro e saúde mental

Envelhecer é universal, mas o caminho que cada um percorre até lá tem muito a ver com o sexo biológico. Homens e mulheres envelhecem sob influências hormonais, genéticas e comportamentais bastante diferentes — e isso se traduz em padrões de saúde, doenças e longevidade que merecem atenção tanto da ciência quanto do senso comum.

Quem vive mais — e por quê

O dado mais imediato é também o mais revelador: em todo o mundo, as mulheres vivem mais do que os homens. No Brasil, segundo as Tábuas de Mortalidade do IBGE divulgadas em novembro de 2025, a expectativa de vida das mulheres chegou a 79,9 anos em 2024, enquanto a dos homens ficou em 73,3 anos — uma diferença de 6,6 anos que se mantém estável nos últimos anos.

Globalmente, a Organização Mundial da Saúde registrou, em 2023, médias de 75,8 anos para mulheres e 70,5 anos para homens. Essa lacuna é um fenômeno universal, presente em praticamente todos os países estudados.

Mas o que explica essa diferença? A resposta é multifatorial. O IBGE aponta que a chamada sobre mortalidade masculina é especialmente marcante entre adultos jovens: na faixa de 20 a 24 anos, homens têm 4,1 vezes mais probabilidade de morrer do que mulheres — resultado de causas externas como homicídios, acidentes de trânsito e suicídios. Fatores comportamentais como maior consumo de álcool e tabaco e menor adesão a cuidados médicos preventivos também pesam na balança.

Há, contudo, uma dimensão biológica importante. Uma revisão publicada na revista eLife em 2021, assinada por pesquisadoras do Instituto Karolinska, na Suécia, destaca que mulheres tendem a apresentar idades biológicas menores do que homens quando avaliadas por biomarcadores moleculares — sugerindo que o envelhecimento celular feminino, ao menos até certa fase da vida, avança de forma mais lenta.

O paradoxo da longevidade feminina

Viver mais, no entanto, não é sinônimo de viver melhor. Aqui reside um dos paradoxos mais estudados pela gerontologia: mulheres são mais longevas, mas frequentemente enfrentam mais anos de incapacidade e fragilidade ao final da vida.

A mesma revisão do Instituto Karolinska observa que, apesar de as mulheres terem idades biológicas menores, elas tendem a ser mais frágeis e apresentar pior saúde funcional nos últimos anos de vida, enquanto os homens, quando chegam a idades avançadas, costumam manter melhor desempenho físico.

Isso tem a ver, em parte, com a menopausa. A queda abrupta dos hormônios ovarianos — especialmente o estrogênio — desencadeia uma série de mudanças que aceleram o envelhecimento feminino em várias frentes: perda de massa óssea (abrindo caminho para a osteoporose), redistribuição de gordura corporal com aumento da gordura abdominal, e elevação do colesterol. Nos homens, a redução da testosterona é gradual e seus efeitos se distribuem ao longo de décadas, sem o mesmo impacto abrupto.

Coração, ossos e músculo: territórios em disputa

As doenças cardiovasculares ilustram bem como o envelhecimento age de modo diferente em cada sexo. Homens desenvolvem problemas cardíacos, como infartos e acidentes vasculares cerebrais, em média uma ou duas décadas antes das mulheres. O estrogênio funciona como um escudo cardiovascular, influenciando positivamente o perfil lipídico e mantendo a flexibilidade dos vasos sanguíneos. Após a menopausa, essa proteção se desfaz, e o risco feminino passa a se aproximar do masculino.

Já em relação aos ossos, é o oposto: mulheres são significativamente mais vulneráveis à osteoporose, justamente pela queda hormonal abrupta que acompanha a menopausa. A massa óssea se reduz de forma mais acelerada, aumentando o risco de fraturas — especialmente de quadril, que têm alto impacto na mortalidade de idosas.

Na musculatura, os homens partem de uma vantagem — maior massa muscular sustentada pela testosterona —, mas também perdem músculo com a idade. Mulheres, especialmente após a menopausa, acumulam gordura com maior facilidade e perdem massa magra de forma acelerada, o que exige atenção redobrada a exercícios de resistência.

O cérebro também envelhece de forma diferente

O campo das neurociências do envelhecimento tem revelado diferenças marcantes entre os sexos. Um dos dados mais relevantes é a maior prevalência de Doença de Alzheimer entre as mulheres. Pesquisas recentes sugerem que a queda do estrogênio durante e após a menopausa pode ser um fator relevante, já que esse hormônio atua no metabolismo energético dos neurônios, na plasticidade sináptica e no controle de processos inflamatórios.

Segundo especialistas consultados pelo portal Sincofarma SP em 2026, mulheres com Alzheimer tendem a apresentar, inicialmente, alterações na memória episódica e verbal, além de maior percepção subjetiva das falhas cognitivas. Já nos homens, déficits visuoespaciais e executivos costumam emergir mais cedo.

Um estudo publicado nos Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), baseado em 12,5 mil exames de ressonância magnética de 4.726 pessoas, revelou que o cérebro masculino perde volume de forma mais rápida com a idade — o que, curiosamente, não elimina o maior risco feminino para o Alzheimer, sugerindo que outros fatores, como diferenças de sobrevivência e vulnerabilidade biológica específica, estão em jogo.

Além da biologia: comportamento e cultura

Seria um erro explicar tudo apenas pela biologia. Homens historicamente buscam menos os serviços de saúde, são mais avessos a exames preventivos e têm maior exposição a comportamentos de risco. Mulheres, por sua vez, constroem redes sociais de apoio mais sólidas — e laços sociais fortes estão fortemente associados à longevidade e ao bem-estar na velhice.

O estudo publicado no Clinical Interventions in Aging (2022) sobre mortalidade e morbidade masculina aponta que diferenças comportamentais — como consumo de álcool e tabaco — explicam parte significativa da disparidade na expectativa de vida, especialmente em países do Leste Europeu, onde esses hábitos são mais comuns entre homens.

Como isto interfere na saúde mental

O envelhecimento afeta a saúde mental de homens e mulheres de maneiras distintas porque alterações hormonais, corporais e sociais não ocorrem no mesmo ritmo nem produzem os mesmos efeitos subjetivos. Nas mulheres, a perimenopausa e a menopausa estão frequentemente associadas a oscilações de estrogênio e progesterona que podem impactar humor, sono, ansiedade, irritabilidade e memória. Além disso, o envelhecimento feminino costuma ser mais pressionado por padrões sociais ligados à aparência, juventude e cuidado com os outros, o que pode intensificar sentimentos de perda de valor social, sobrecarga emocional e sofrimento psíquico. Não por acaso, mulheres apresentam maiores índices de ansiedade e depressão ao longo da vida, especialmente em períodos de transição hormonal e mudanças familiares ou profissionais. 

Nos homens, o envelhecimento tende a produzir efeitos psicológicos diferentes, muitas vezes relacionados à identidade, desempenho e sensação de utilidade social. A redução gradual da testosterona, somada a mudanças físicas, sexuais e profissionais, pode gerar irritabilidade, apatia, insegurança e dificuldades emocionais que frequentemente permanecem pouco verbalizadas. Como muitos homens foram socializados para associar masculinidade à produtividade, força e autocontrole, o envelhecimento pode ser vivido como perda de potência ou autonomia. Isso ajuda a explicar por que homens, embora relatem menos sofrimento emocional, muitas vezes apresentam maior resistência em buscar ajuda psicológica ou médica, o que pode agravar quadros de depressão, isolamento e abuso de álcool ou outras substâncias.

O que isso significa na prática

Compreender que homens e mulheres envelhecem de formas distintas não é apenas uma curiosidade científica — é uma informação que deveria moldar políticas de saúde, estratégias preventivas e escolhas individuais. Mulheres precisam de atenção especial à saúde óssea, cognitiva e cardiovascular após a menopausa. Homens precisam superar a resistência cultural aos cuidados médicos e adotar hábitos mais protetores ainda nas décadas de 30 e 40. O envelhecimento pode ser inevitável. Mas como chegamos à velhice — e com que qualidade de vida — depende, em boa parte, de quanto levamos a sério essas diferenças.

Fontes: 

  • IBGE. Tábuas de Mortalidade 2024. Agência IBGE Notícias, nov. 2025. Disponível em: agenciadenoticias.ibge.gov.br
  • Hägg, S.; Jylhävä, J. Sex differences in biological aging with a focus on human studies. eLife, 2021. DOI: 10.7554/eLife.63425
  • Franceschi, C. et al. Gender, aging and longevity in humans. Clinical Interventions in Aging, 2016. PubMed Central: PMC4994139
  • Liampas, I. et al. Cognitive Performance and Incident Alzheimer's Dementia in Men Versus Women. JPAD, 2024. DOI: 10.14283/jpad.2023.90
  • Sincofarma SP. Por que as mulheres são mais propensas ao Alzheimer? Fev. 2026. Disponível em: sincofarmasp.com.br
  • Mundo Boa Forma. Cérebro de homens e mulheres encolhe a velocidades diferentes. Mar. 2026. Disponível em: mundoboaforma.com.br
  • OMS. World Health Statistics 2024. Disponível em: who.int

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