Veja também estes artigos:

Puerpério e Saúde Emocional: o que Mães e Pais Precisam Saber sobre o Pós-Parto

A chegada de um bebê costuma ser retratada como um dos momentos mais felizes da vida. As semanas depois do parto, porém, trazem também cansaço, medo, choro inesperado e a sensação de que a vida virou de cabeça para baixo. Esse período tem nome: puerpério. Conhecê-lo ajuda mães e pais a diferenciarem o que é esperado do que merece atenção e a buscarem apoio sem culpa. Este texto trata de parto, pós-parto e saúde emocional, incluindo a do homem, que costuma ficar de fora dessa conversa.

O que é o puerpério?

O puerpério é o período que começa logo após o parto. A Organização Mundial da Saúde considera as primeiras seis semanas como fase de recuperação física, em que mãe e bebê precisam de acompanhamento (OMS, 2022). Emocionalmente, a adaptação costuma ser mais longa. Há mudanças hormonais intensas, noites mal dormidas, dores, amamentação, visitas, palpites e uma rotina que passa a girar em torno de alguém totalmente dependente.

Não é só o corpo que muda. A mulher passa a ser mãe, o homem passa a ser pai, o casal passa a ser família. Mesmo quando o bebê foi muito desejado, sentir falta da vida de antes é comum e não significa falta de amor pelo filho.

O parto também deixa marcas emocionais

A forma como o parto é vivido influencia o pós-parto. Pesquisas mostram que a percepção de falta de apoio, de controle e de acolhimento durante o parto está entre os fatores mais associados a reações traumáticas depois dele (Ayers et al., 2016).

Algumas mulheres revivem o parto em pensamentos repetitivos, têm pesadelos ou evitam falar do assunto. Quando isso persiste e atrapalha a vida, pode se tratar de transtorno de estresse pós-traumático ligado ao parto. Esse transtorno atinge cerca de 4% das mulheres após o nascimento do bebê (Yildiz; Ayers; Phillips, 2017) e tem tratamento.

Baby blues: a tristeza passageira do pós-parto

Nos primeiros dias depois do nascimento, muitas mulheres passam pelo chamado baby blues: choro fácil, irritabilidade, sensibilidade à flor da pele, ansiedade e oscilações de humor. Ele costuma aparecer nos primeiros dias após o parto e desaparece sozinho em até duas semanas. Está associado às mudanças hormonais do pós-parto, ao cansaço e ao impacto da nova realidade (O'Hara; Wisner, 2014).

O baby blues não é considerado doença. Descanso, apoio prático e alguém disposto a ouvir sem julgar costumam ser suficientes.

Depressão pós-parto: quando a tristeza não passa

Se os sintomas duram mais de duas semanas, se intensificam ou surgem semanas ou meses depois do parto, é preciso considerar a depressão pós-parto. No Brasil, a pesquisa Nascer no Brasil, coordenada pela Fiocruz, encontrou sintomas de depressão pós-parto em 26,3% das mães, ou seja, cerca de uma em cada quatro (Theme Filha et al., 2016).

Sinais de alerta:

  • tristeza profunda ou sensação de vazio na maior parte do dia;
  • perda de interesse pelo que antes dava prazer;
  • dificuldade de sentir vínculo com o bebê;
  • culpa excessiva e sensação de ser uma mãe ruim;
  • insônia mesmo quando o bebê dorme, ou perda de apetite;
  • pensamentos de que a família estaria melhor sem ela.

Depressão pós-parto não é frescura nem fraqueza. É uma condição tratável, com psicoterapia e, quando necessário, medicação. A medicação é avaliada por um médico, que considera inclusive a amamentação (NICE, 2014).

Existe ainda um quadro raro e grave, a psicose pós-parto. Atinge uma ou duas mulheres a cada mil partos e costuma surgir nas primeiras semanas, com confusão, alterações intensas de humor, ideias estranhas ou alucinações (Bergink; Rasgon; Wisner, 2016). É uma emergência médica.

E o homem? A saúde emocional do pai no pós-parto

O pós-parto foi visto por muito tempo como assunto exclusivamente feminino, mas os pais também podem adoecer. Uma revisão de 43 estudos estimou que cerca de 10% dos pais apresentam depressão entre a gestação e o primeiro ano do bebê. A mesma revisão encontrou associação entre a depressão da mãe e a do pai (Paulson; Bazemore, 2010).

No homem, os sinais nem sempre aparecem como tristeza. Podem surgir como irritação, isolamento, dedicação excessiva ao trabalho, aumento do consumo de álcool ou distanciamento da família (Kim; Swain, 2007).

Cuidar da saúde emocional do pai não tira o foco da mãe. Um pai apoiado tem mais condições de dividir tarefas, proteger o descanso da parceira e construir seu próprio vínculo com o bebê.

O casal depois do bebê

Um estudo que acompanhou casais por oito anos observou queda na satisfação com o relacionamento após o nascimento do primeiro filho (Doss et al., 2009). Menos tempo a dois, menos sono e divergências sobre o cuidado com o bebê fazem parte dessa fase. Conversar sobre expectativas e dividir tarefas de forma justa ajuda a atravessá-la com menos mágoas.

Como cuidar da saúde emocional no puerpério

  • Aceitar ajuda concreta: comida pronta, roupa lavada, alguém que segure o bebê para a mãe dormir.
  • Limitar visitas e palpites quando cansam mais do que ajudam.
  • Falar abertamente sobre o que sente.
  • Manter o acompanhamento de saúde da mãe, não só o do bebê, como recomenda a OMS (2022).
  • Lembrar que as imagens perfeitas das redes sociais são recortes, não a rotina real.

Quando procurar um psicólogo ou psicanalista

Vale buscar ajuda profissional em três situações: quando o sofrimento dura mais de duas semanas, quando atrapalha o cuidado consigo ou com o bebê, ou quando o parto deixou lembranças que não saem da cabeça. A psicoterapia oferece espaço para elaborar a experiência do parto, as mudanças de identidade e os conflitos que a chegada de um filho desperta.

Na rede pública, o atendimento pode começar pela Unidade Básica de Saúde, que faz o acompanhamento pós-parto e pode encaminhar para serviços de saúde mental. Diante de pensamentos de se machucar ou de machucar o bebê, a orientação é procurar atendimento imediatamente: uma unidade de saúde, um pronto-socorro ou o CVV, pelo telefone 188.

O puerpério é uma travessia intensa, feita de amor, cansaço e transformação. Sentir-se perdido nesse período não é sinal de fracasso. Mães e pais merecem cuidado, informação e escuta. Pedir ajuda também é uma forma de cuidar do bebê.

Referências

THEME FILHA, M. M. et al. Factors associated with postpartum depressive symptomatology in Brazil: the Birth in Brazil National Research Study, 2011/2012. Journal of Affective Disorders, v. 194, p. 159-167, 2016. DOI: 10.1016/j.jad.2016.01.020.

PAULSON, J. F.; BAZEMORE, S. D. Prenatal and postpartum depression in fathers and its association with maternal depression: a meta-analysis. JAMA, v. 303, n. 19, p. 1961-1969, 2010. DOI: 10.1001/jama.2010.605.

DIKMEN YILDIZ, P.; AYERS, S.; PHILLIPS, L. The prevalence of posttraumatic stress disorder in pregnancy and after birth: a systematic review and meta-analysis. Journal of Affective Disorders, v. 208, p. 634-645, 2017. DOI: 10.1016/j.jad.2016.10.009.

O'HARA, M. W.; WISNER, K. L. Perinatal mental illness: definition, description and aetiology. Best Practice & Research Clinical Obstetrics & Gynaecology, v. 28, n. 1, p. 3-12, 2014. DOI: 10.1016/j.bpobgyn.2013.09.002.

Aviso: este conteúdo tem caráter exclusivamente informativo e educativo. Ele não substitui avaliação, diagnóstico ou tratamento feitos por profissionais de saúde, como médicos, psicólogos e psicanalistas. Se você se identificou com os sinais descritos, procure um profissional de saúde ou uma Unidade Básica de Saúde. Em situação de crise ou risco, procure imediatamente um pronto-socorro, ligue para o SAMU (192) ou para o CVV (188, ligação gratuita, 24 horas).

 

 

BIGTheme.net • Free Website Templates - Downlaod Full Themes