A pandemia das bets: repetição dos anos 1990 ou um vício completamente novo?

Se você tem mais de trinta e cinco anos, talvez lembre de uma cena comum no Brasil do fim dos anos 1990: salas de bingo lotadas, máquinas caça-níqueis escondidas em bares e mercadinhos de bairro, e o "jogo do bicho" funcionando quase às claras em qualquer esquina. Foi um período tão problemático que, em 2004, o governo decidiu banir de vez bingos e caça-níqueis do país. Passaram-se pouco mais de vinte anos e o cenário voltou — só que, dessa vez, direto na palma da mão, através do celular, com um nome mais sedutor: as "bets".

A pergunta que fica é: estamos vendo a mesma história se repetir, ou o fenômeno das apostas online é, na prática, um vício qualitativamente diferente?

Uma velha história com uma nova interface

Do ponto de vista legal, a semelhança com os anos 1990 é evidente. Naquela época, a chamada Lei Zico (1993) chegou a autorizar bingos e caça-níqueis no país, mas foi revogada cinco anos depois pela Lei Pelé — e mesmo assim as casas de bingo continuaram funcionando informalmente até 2004, quando o então presidente Lula assinou o decreto que baniu a modalidade, em meio a denúncias de corrupção envolvendo essas casas. O texto entrou em vigor pouco antes de escândalos que ligavam contraventores do jogo do bicho ao financiamento de campanhas políticas.

Hoje, o roteiro tem elementos parecidos: crescimento acelerado, forte apelo popular, denúncias de irregularidades — só que a escala é muito maior, porque o acesso não depende mais de sair de casa. As chamadas apostas esportivas de quota fixa foram legalizadas no Brasil em 2018, e desde então o setor cresceu rapidamente, impulsionado por publicidade agressiva, patrocínios esportivos e influenciadores digitais. O resultado numérico é impressionante: estima-se que os brasileiros já apostem algo em torno de R$ 20 bilhões por mês em plataformas digitais.

O que realmente mudou: a barreira de acesso

A principal diferença entre as duas épocas não é o impulso humano por jogo — esse é antigo — mas a barreira de entrada. Nos anos 1990, apostar exigia sair de casa, ir a um estabelecimento físico, muitas vezes lidar com alguma clandestinidade. Hoje, o smartphone e sistemas de pagamento instantâneo como o Pix tornaram as apostas acessíveis a qualquer hora e em qualquer lugar, eliminando praticamente todo atrito entre o impulso de apostar e a ação de apostar.

Esse detalhe é mais importante do que parece do ponto de vista psicológico: quanto menor a distância entre o desejo e a possibilidade de agir sobre ele, maior o risco de comportamento compulsivo se instalar. Um estudo publicado no Journal of Gambling Studies mostrou como a migração de jogos presenciais para o formato online — acelerada durante a pandemia de covid-19 — se relaciona com fatores de risco específicos para o desenvolvimento de comportamento problemático, distintos daqueles observados no jogo tradicional.

Um transtorno reconhecido, não um exagero

Vale um esclarecimento importante para quem lê isso pensando "eu só aposto por diversão": o transtorno do jogo é reconhecido oficialmente pelo Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5), classificado como transtorno aditivo — na mesma categoria de mecanismos neurobiológicos associados à dependência química, e não apenas como um "mau hábito" ou falta de força de vontade.

Segundo o psiquiatra Hermano Tavares, que coordena o Ambulatório do Jogo Patológico do Hospital das Clínicas da USP, o número de adolescentes expostos às apostas aumentou significativamente desde a legalização das plataformas online, e mesmo sendo proibido apostar antes dos 18 anos, essa regra é amplamente desrespeitada — com impacto direto na formação escolar, na saúde mental e na inserção social dos jovens.

Os efeitos na saúde mental e emocional

Os impactos emocionais do vício em apostas vão muito além do prejuízo financeiro, embora ele também seja severo: estudos e levantamentos recentes apontam que a maior parte dos apostadores frequentes acumula dívidas, fica com o nome negativado e compromete parte relevante da própria renda mensal com apostas.

No campo emocional, os efeitos mais comumente relatados incluem insônia, alterações de humor, irritabilidade, isolamento social e queda no desempenho profissional. Um levantamento com jovens adultos brasileiros identificou que fatores psicológicos como impulsividade, dificuldade de regulação emocional e busca por alívio de ansiedade estão entre os principais gatilhos da compulsão por apostas — e que a Terapia Cognitivo-Comportamental, combinada com psicoeducação, tem se mostrado eficaz tanto na prevenção quanto no tratamento dessa dependência.

Há ainda um mecanismo cognitivo específico que ajuda a explicar por que tanta gente insiste em apostar mesmo perdendo repetidamente: a chamada ilusão de controle, fenômeno estudado na psicologia do comportamento do apostador, em que a pessoa passa a acreditar — de forma equivocada — que consegue prever ou influenciar resultados que são, na verdade, aleatórios.

Então, é repetição ou é algo novo?

A resposta mais honesta é: é as duas coisas ao mesmo tempo. O impulso humano por apostar, a ilusão de controle e os mecanismos neurobiológicos do vício não são novidade — isso se repete desde os cassinos dos anos 1930 e 1940, passando pelos bingos dos anos 1990. O que é genuinamente novo é a escala de acesso: nunca antes um comportamento potencialmente aditivo esteve tão próximo, tão disponível e tão socialmente normalizado, presente inclusive em transmissões esportivas e redes sociais, sem nenhuma das barreiras físicas que antes funcionavam, ainda que precariamente, como um freio.

O que fazer com essa informação

Se você reconhece em si mesmo, ou em alguém próximo, um padrão de apostas que já causa prejuízo financeiro, emocional ou nas relações, vale procurar apoio profissional — psicólogos e psiquiatras especializados em dependências comportamentais têm ferramentas concretas para lidar com isso, e quanto antes o padrão é identificado, mais simples costuma ser a intervenção.

Nota: Este texto aborda o tema das apostas online de forma informativa. Se você ou alguém próximo está enfrentando dificuldades relacionadas a jogo compulsivo, buscar acompanhamento psicológico ou psiquiátrico especializado é um passo importante — esse não é um problema que se resolve apenas com força de vontade.

Referências

AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION (APA). Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais: DSM-5-TR. 5. ed. rev. e atual. Porto Alegre: Artmed, 2022.

ALLAMI, Y. et al. Migrating from land-based to online gambling: the impact of COVID-19 and associated risk factors. Journal of Gambling Studies, v. 39, n. 2, p. 545–562, 2023.

DALGALARRONDO, P. Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais. 3. ed. Porto Alegre: Artmed, 2019.

PROENÇA, R. A ilusão de controle nas apostas desportivas: uma análise cognitiva do comportamento do apostador. Revista Portuguesa de Psicologia do Comportamento, v. 9, n. 2, p. 1–15, 2021.

 

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