• Home
  • Conteúdo
  • Você sabia?
  • Alucinação auditiva e gênero: O que ouvir vozes revela sobre machismo, violência e saúde mental

Alucinação auditiva e gênero: O que ouvir vozes revela sobre machismo, violência e saúde mental

Cátia repetia baixinho o que a bisavó lhe ensinara: "temos que ficar caladas, que a maior sabedoria que existe é não fazer nada, ficar calada e ter calma". Foi assim que ela atravessou anos de violência do então marido — até o dia em que o silêncio já não bastava, e o desespero encontrou outra saída: vozes. Ameaças, ordens, gritos que só ela ouvia. Diagnosticada, internada, contida à força, Cátia tornou-se mais um número nas estatísticas de saúde mental. Mas há uma pergunta que raramente se faz em um pronto-socorro psiquiátrico: o que essas vozes estavam, de fato, tentando dizer?

É essa pergunta que orienta um dos capítulos mais inquietantes do livro "Psicologia, História Cultural e Governamentalidades", referência nos estudos sobre gênero e saúde mental no Brasil. A partir de entrevistas e observações feitas num grupo de apoio a "ouvidores de vozes" dentro de um CAPS brasileiro, os autores chegam a uma conclusão que contraria décadas de psiquiatria tradicional: a alucinação auditiva pode ser menos um defeito do cérebro e mais um sintoma de uma vida atravessada por violência e desigualdade de gênero.

A ideia não nasceu no consultório brasileiro. Ela ecoa o movimento internacional Hearing Voices Network — a Rede de Audição de Vozes —, que desde os anos 1980 defende que ouvir vozes não é, por si só, sinônimo de esquizofrenia ou de loucura. Para os pesquisadores ligados a esse movimento, entre eles Marius Romme e Sandra Escher, pioneiros do campo, as vozes funcionam como uma linguagem cifrada: expressam emoções, memórias e conflitos que a pessoa não conseguiu — ou não pôde — verbalizar de outro modo (Romme; Escher, 2000). A psicóloga Lisa Blackman vai além: para ela, ouvir vozes é, com frequência, uma forma de sofrimento comum, moldada por relações de poder como racismo e sexismo, e não uma patologia isolada do resto da vida social (Blackman, 2015).

O estudo brasileiro testou essa hipótese observando um recorte específico: como o gênero molda o conteúdo das vozes e os episódios que as desencadeiam. E o retrato que emerge é revelador. Entre as mulheres entrevistadas, seis em cada onze (54,5%) relataram ter sofrido violência sexual ao longo da vida — patamar bem superior às estimativas da Organização Mundial da Saúde para a população em geral (WHO, 2013; 2014). Muitas delas haviam aprendido, ainda na infância, que o silêncio era a única estratégia de sobrevivência disponível diante de maridos violentos, pais ausentes ou discursos religiosos que atribuíam o sofrimento a "carma" ou "castigo". Só que o silêncio tem um preço: pesquisas mostram que emoções reprimidas, como raiva e culpa, estão entre os principais gatilhos da audição de vozes (Corstens; Longden, 2013). Não por acaso, era justamente nos momentos de maior opressão que as vozes de comando surgiam mais agressivas.

Outras vozes femininas do estudo giravam em torno da pressão estética — o medo de engordar, a vergonha do corpo fora do padrão, em alguns casos levando a cirurgias motivadas menos por saúde do que por medo do julgamento alheio — e da culpa relacionada à maternidade, sobretudo quando os cuidados com os filhos recaíam inteiramente sobre elas, sem qualquer suporte paterno.

Já entre os homens, o roteiro das vozes seguia outra lógica, mas igualmente amarrada a expectativas de gênero. Tales, outro participante do grupo, cresceu sendo proibido pelo próprio pai de brincar com meninas; devia jogar bola, ser "mais bruto", provar constantemente sua masculinidade. O antropólogo francês Daniel Welzer-Lang descreveu esse processo como uma espécie de rito de passagem violento, ao qual chamou de "casa dos homens" — um percurso de provações que os meninos atravessam, muitas vezes à custa de sofrimento e agressão, para serem reconhecidos como homens "de verdade" (Welzer-Lang, 2001). Anos depois, era justamente sobre sua masculinidade que as vozes de Tales o atacavam: xingamentos misóginos e homofóbicos, cobranças de desempenho sexual, dúvidas sobre sua orientação. Para o sociólogo Michael Kimmel, esse tipo de ataque simbólico não é acidental: a masculinidade hegemônica se constrói, em grande parte, pelo medo de ser visto como "menos homem" — e esse medo, quando internalizado, pode retornar como voz persecutória (Kimmel, 2016). Em outros participantes, era o desemprego, e a incapacidade de sustentar o papel de provedor, que as vozes usavam como munição, sempre reforçando a mesma cobrança: produza, ou deixe de ser homem.

O que esses relatos sugerem, em conjunto, é que a mente não alucina no vazio. Ela alucina dentro de uma cultura — com seus roteiros de gênero, suas violências normalizadas e suas exigências de desempenho. Tratar a voz apenas com fármacos, sem investigar o que ela diz e por que ela apareceu justamente ali, pode calar o sintoma sem tocar sua origem. E, nesse silêncio clínico, o contexto que produziu o sofrimento — o parceiro violento, a cobrança impossível, a solidão do cuidado — segue absolutamente intacto.

Não se trata de romantizar a experiência psicótica, tampouco de descartar a importância do acompanhamento psiquiátrico quando ele é necessário. Trata-se de uma escuta mais ampla: perguntar quem fala através da voz, o que ela cobra, de quem ela seria o eco. Uma pergunta simples, e ainda assim raramente feita, sobre um dos sintomas mais estigmatizados da psiquiatria.

Referências

  • BLACKMAN, L. Affective politics, debility and hearing voices: towards a feminist politics of ordinary suffering. Feminist Review, v. 111, n. 1, p. 25-41, 2015.
  • CORSTENS, D.; LONGDEN, E. The origins of voices: links between life history and voice hearing in a survey of 100 cases. Psychosis, v. 5, n. 3, p. 270-285, 2013.
  • FERNANDES, H. C. D.; ZANELLO, V. Vozes que denunciam opressões: estudos de gênero, saúde mental e alucinação auditiva. In: LEMOS, F. C. S. et al. (orgs.). Psicologia, História Cultural e Governamentalidades: racismo, etnicidade, gênero, sexualidades e corpos. Curitiba: CRV, 2020. p. 241-260.
  • KIMMEL, M. Masculinidade como homofobia: medo, vergonha e silêncio na construção da identidade de gênero. Equatorial, v. 3, n. 4, p. 97-124, 2016.
  • ROMME, M.; ESCHER, S. Making sense of voices. London: Mind, 2000.
  • WELZER-LANG, D. A construção do masculino: dominação das mulheres e homofobia. Revista de Estudos Feministas, v. 9, n. 2, p. 460-482, 2001.
  • WORLD HEALTH ORGANIZATION. Responding to intimate partner violence and sexual violence against women: WHO clinical and policy guidelines. Geneva: WHO, 2013.
  • ZANELLO, V. Saúde mental, gênero e dispositivos: cultura e processos de subjetivação. Curitiba: Appris, 2018.

Aviso: este texto tem finalidade informativa e educativa, baseado em um estudo científico específico, e não substitui avaliação, diagnóstico ou tratamento por profissional de saúde mental qualificado. Se você ou alguém que você conhece ouve vozes ou está passando por sofrimento psíquico, procure um serviço de saúde (como um CAPS) ou um profissional de psicologia ou psiquiatria de confiança.

 

BIGTheme.net • Free Website Templates - Downlaod Full Themes