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Apontamentos para a elaboração de projetos no Acompanhamento Terapêutico de pacientes psicóticos.

Publicado em Textos, texturas e tessituras no Acompanhamento Terapêutico, Santos, Ricardo Gomides (org.), Hucitec, São Paulo, 2006

HAILTON YAGIU 

RESUMO:

Tomando como base o acompanhamento terapêutico de pacientes psicóticos e suas particularidades este texto pretende mostrar a importância da existência de um plano de trabalho que oriente a pratica. Primeiramente contextualizamos a situação do acompanhamento terapêutico onde a idéia de projeto ganha força e sentido, depois enumeramos alguns dos itens que julgamos ser importantes na confecção de um projeto terapêutico, e finalmente sugerimos um lugar a partir de onde poder-se-ia acompanhar seu desenvolvimento. Estes apontamentos longe de serem definitivos têm como objetivo propor algumas idéias para o desenvolvido um projeto desta natureza, e mais que isso, abrir um campo para o pensar e o desenvolver deste tema tão pouco teorizado nesta prática.

PALAVRAS CHAVE: Acompanhamento Terapêutico, Psicoses, Projetos.

                                                                                                                  Aos mestres e amigos ESB, ESF, EVR, pela mágica com que transformam as vidas.

                                                                                                                          Marco Pólo a Kublai Khan:

“O inferno dos vivos não é algo que será; se existe, é aquele que já está aqui, o inferno no qual vivemos todos os dias, que formamos estando juntos. Existem duas maneiras de não sofrer. A primeira é fácil para a maioria das pessoas: aceitar o inferno e tornar-se parte deste até o ponto de deixar de percebê-lo. A segunda é arriscada e exige atenção e aprendizagem contínuas: tentar saber reconhecer quem e o que, no meio do inferno, não é inferno, e preservá-lo, e abrir espaço.”

 Ítalo Calvino, As Cidades Invisíveis.

Introdução

A elaboração de um projeto terapêutico depende das características dos sujeitos a quem ele se destina e dos objetivos a que eles querem chegar. Assim como os sujeitos, cada projeto tem suas particularidades e é único. Baseados em nossa experiência no acompanhamento terapêutico de abordagem psicodinâmica, deter-nos-emos aqui, em alguns pontos que, de modo geral, julgamos importantes para a elaboração de um projeto no acompanhamento terapêutico de pacientes psicóticos.

O tratamento bem sucedido das psicoses, na maior parte das vezes, inclui intervenções psicológicas, sociais e medicamentosas[1]. Apesar dos avanços terapêuticos proporcionados pelo surgimento de novos medicamentos, estes não se mostram definitivos nem suficientes para o tratamento dos pacientes psicóticos. As abordagens não-medicamentosas, como terapias psicológicas, intervenções vocacionais, familiares e sociais, vêm sendo incrementadas para a melhora do quadro geral do paciente. Pesquisas apontam que uma forte aliança terapêutica com o paciente e sua família, uma psico-educação abrangente para ambos, uma coordenação do suporte social e da integração ocupacional, quando somados à utilização dos medicamentos, contribuem bastante para a recuperação do paciente.

O suporte das terapias psicológicas no tratamento das psicoses não tem conseguido dar conta de certos fatores associados com a experiência das psicoses, como os casos de reintegração social, o sentimento de exclusão, a alteração do senso do eu em algumas experiências cotidianas e a reabilitação social[2], pois estas requerem das psicoterapias uma flexibilidade que às vezes seu enquadre não permite. Flexibilidade esta que requer que o terapeuta transforme os temas trazidos pelos pacientes em passos a serem desenvolvidos e adapte as estratégias terapêuticas para as necessidades dos mesmos: esta é uma das ocasiões em que surge a necessidade do acompanhamento terapêutico.

Aspectos do acompanhamento terapêutico com pacientes psicóticos

A prática do acompanhamento terapêutico, em geral, exige que o acompanhante esteja atento àquilo que lhe causa estranheza. Mais ainda naqueles casos que se estendem por um período mais longo e nos quais as mudanças são lentas, pois nestes há o risco de sermos capturados pela aparente mesmice; os movimentos do paciente se tornam por demais conhecidos, previsíveis, e por isso podem passar desapercebidos. O momento exato para uma intervenção eficaz pode estar em meio aos temas recorrentes que já não nos soam mais estranhos; se nos distrairmos por supormos ser uma repetição do mesmo, deixamo-lo escapar pela desatenção.

Este é o caso de alguns acompanhamentos terapêuticos com pacientes psicóticos; aqui, em cada olhar lançado ao paciente no decorrer do acompanhamento, deve haver uma recusa a acostumar o olho a ver sempre o mesmo onde nada parece se alterar; neste sentido é fundamental que haja um incômodo no acompanhante, que o impeça de tomar a realidade como algo dado, instituído. É necessário que, ao experienciar o habitual, haja um espanto, que torne possível a percepção da diferença entre a realidade que se lhe apresenta e a realidade como ela deveria ser.

Não raro, temos a sensação de estarmos imersos em uma outra temporalidade, envoltos em temas como impotência, morte, ausência de limites, simbioses e, somado a estes, o estado de isolamento em que o paciente freqüentemente se encontra e que caracteriza as situações em que predomina o retraimento. Nestas ocasiões, defrontamo-nos muitas vezes com um outro referencial espaço-tempo e com a necessidade de encontrar, a despeito disso, algo que seja terapêutico, que possa levar o paciente a alguma produção na medida das suas possibilidades e que possa lhe proporcionar algum nível de simbolização.

Aqui é preciso relativizar: nossos referenciais e valores devem ser suspensos, de forma que não sejam impostos ao paciente; há que se levar em conta a subjetividade e o ritmo deste, reconhecendo-os para poder aproveitar a potência dos aspectos preservados, de forma a aliar-se a eles, criando condições para que o paciente possa se beneficiar do acompanhamento. Cuidado e paciência se fazem necessários: sem o primeiro poderemos ser traídos pelas aparências, pois nem sempre um movimento do paciente significa uma evolução clínica, e uma aparente imobilidade pode revelar uma evolução; e sem a segunda corre-se o risco de se impor ao paciente um desejo e um ritmo que não os dele; neste ponto estamos seguindo à risca o conselho que Freud dava em 1919 ao público presente no V Congresso Internacional de Psicanálise:

Recusamos peremptoriamente transformar um paciente que se entrega em nossas mãos à procura de auxílio, em nossa propriedade privada, a decidir por ele a sua sorte, a impor-lhe os nossos ideais e, com o orgulho de um criador, fazê-lo à nossa imagem e ver que é bom[3].

Por que é importante um projeto?

Muitas vezes os pacientes psicóticos sofrem de algum tipo de perda funcional que faz com que seu cotidiano esteja sujeito a mudanças, e muitas vezes torna-se necessário o preenchimento do tempo livre ocasionado pelo abandono de certas atividades rotineiras, o que exige uma reorganização da vida psíquica e prática do paciente, na qual alguns papéis deixam de ser exercidos com o surgimento de outros. Cabe ao acompanhante, nestes casos, propiciar as condições para que o paciente, aos poucos, crie uma rotina diferente daquela na qual ele está mergulhado, por vezes destituído de seus direitos básicos, e em uma situação na qual os espaços de circulação estão reduzidos e seu território atrofiado, fazendo surgir entre o paciente e o mundo uma descontinuidade. Porém não se trata somente de uma simples adaptação, ensinando-lhe como voltar a freqüentar lugares, mas também da criação de possibilidades para que ele possa encontrar os elementos necessários para conseguir enfrentar algumas limitações e, a partir disso, existir de uma outra maneira, ocupando um lugar menos marginalizado. Nossa tarefa é a de cuidar do paciente, de seus sucessos e fracassos, pois isto vai possibilitar que ele se adapte aos seus progressos e passe a desfrutá-los.

Em uma visão antropológica, Velho[4] diz que um projeto é uma tentativa de dar sentido ou coerência a uma existência que é habitada pelas idéias de alienação, fragmentação e desmapeamento, e que revelam a descontinuidade que permeia nossa existência, por isso eles são construídos levando-se em conta a realidade que nos cerca: tratando-se de um compromisso entre a individualidade e a inserção em categorias e espaços cada vez mais amplos, de forma que possa fazer sentido em interação com os contemporâneos. Além disso, projetos são movidos por emoções, ou seja, por motivações próprias e por isso têm o poder de produção e transformação, além de serem dinâmicos na medida em que estão inscritos em um tempo e espaço com outros sujeitos e inseridos em um contexto histórico comum, estando também sujeitos a mudanças. Um projeto só pode ser desenvolvido a partir de uma escolha, assim a idéia básica de projeto é a de que o sujeito tem a possibilidade e a liberdade de fazer uma escolha.

A perspectiva da Antropologia nos auxilia a mapear o campo de trabalho e identificar os componentes com os quais vamos operar na elaboração de um projeto, porém esta elaboração traz alguns riscos como, por exemplo, o de tomarmos nossos próprios desejos em relação ao paciente, ou mesmo o de utilizarmos os desejos dos familiares como guias para o projeto, fazendo com que as nossas angústias frente às limitações do paciente sejam, com isto, aplacadas. Poder esperar o surgimento de algo que brilhe aos olhos do paciente e que o mova na direção de uma escolha pode trazer uma experiência muito enriquecedora para o mesmo, pois, ao não lhe imputarmos nosso desejo, estaremos possibilitando o aparecimento de sua subjetividade. Alertamos ainda para a importância da capacidade do acompanhante de permitir e esperar que o paciente, em seu ritmo, escolha o projeto de seu interesse, se aproprie dele e finalmente o abandone, finalizando-o ou mesmo transformando-o em um outro projeto.

Um dos objetivos terapêuticos do projeto em acompanhamento terapêutico com pacientes psicóticos é o de auxiliá-lo a sair do estado de apatia, de desesperança, e aos poucos dar lugar para o surgimento e desenvolvimento da capacidade de criar, de recuperar os aspectos pessoais, da capacidade de cuidar de si mesmo e em alguns casos o direito de participar de suas escolhas, de despertar e conservar o que Green chama de “vitalidade psíquica”[5], fazendo surgir em algumas ocasiões um sujeito implicado com sua própria história. Neste contexto ganha força, sentido e importância a idéia da elaboração de um projeto terapêutico.

Com isto nos alinhamos à corrente de pensamento que considera que o homem, enquanto animal, está encadeado à natureza de sua espécie; é constantemente influenciado pelo tempo-espaço em que vive, e seus valores são determinados por forças externas a ele; não obstante, possui uma força criativa e uma interioridade, e se vê impelido a significar a sua existência, e para isso constrói um guia (projeto) por meio do qual vai se aperfeiçoando e realizando[6].

O que é importante em um projeto?

Cabe antes de qualquer coisa esclarecer que a idéia de projeto terapêutico para pacientes psicóticos tem suas características próprias: o foco localizado no presente; o futuro próximo é almejado, mas atingir metas muitas vezes se torna secundário em relação aos ganhos subjetivos que se alcançam; a duração não é um fator preponderante, o que faz com que se desfrute mais os momentos de conquistas e se maneje o tempo com maior liberdade e permite que as obrigações também se flexibilizem.

Na elaboração de um projeto desta natureza, a reabilitação social ocupa lugar de destaque, e para isso nos focamos nos aspectos preservados dos pacientes, pois serão estes que irão possibilitar o desenvolvimento das possibilidades e potencialidades e revelar as reais capacidades dos mesmos. É importante que nos utilizemos dos aspectos preservados como uma possibilidade de resgate de sua história, fazendo aos poucos, com que o paciente seja capaz de simbolizar, por meio das ações, o seu presente e possa se reconhecer em cada uma das etapas vividas, possibilitando a integração do passado ao presente para a projeção de um futuro próximo.  

O desenvolvimento deste tipo de projeto requer considerações que incluam tanto as questões transversais (quadro atual) como as longitudinais (sua história, processo do seu adoecimento) e deve pôr o paciente e sua família em colaboração mútua. Alguns dos aspectos a serem abordados são: a avaliação, o planejamento dos objetivos e a metodologia.

Uma avaliação precisa e cuidadosa é a base de um correto planejamento e intervenção, sem aquela estes últimos estão fadados ao fracasso, por isto é importante mapear os aspectos preservados do paciente para descobrir seus recursos, avaliando seu potencial de investimento afetivo, possibilidades, limitações e medos, sua capacidade de estabelecer vínculos e levá-los em consideração na escolha, elaboração e dimensão de seu projeto, ou seja, verificar o que é possível de se realizar e conquistar apesar de suas limitações. Muitas vezes nas fases iniciais, e durante a elaboração de um projeto, dependendo das características do paciente, é preciso que o acompanhante lhe ofereça muita vitalidade, investindo, estimulando e confiando nas possibilidades dele. Segundo Green, esta vitalidade tem função estruturante[7] porque é garantia de que se continua interessado no paciente e não se cedeu à tentação de retaliá-lo. O autor diz que “interessar-se por um paciente é, talvez, antes de tudo, dar lhe a possibilidade de cativar-nos por algum detalhe, aparentemente banal, de seu discurso”[8].

Escolher um tema ou objeto a partir do qual possa ser desenvolvido um projeto não é tarefa das mais simples, pois implica levar em consideração uma opção que, entre outras coisas, esteja de acordo com os valores pessoais do paciente, considere as possibilidades, inseguranças e necessidades do mesmo e questione as atividades sugeridas pelo senso comum baseados numa visão preconceituosa do que seja a doença mental. Poder conduzir o paciente a uma escolha implica em estabelecer com ele uma relação apoiada na confiança e no respeito, levando em consideração e reconhecendo as diferenças, e fazê-lo conectar-se com algo que lhe faça sentido e não que lhe seja imposto desde fora, pois esta imposição anula a capacidade de criar e investigar acerca de suas próprias motivações.

Uma escolha implica em começar a ser sujeito de suas ações e a compor sua história, começando a exercer a autonomia e a desalienar-se. Aqui, refletir, ter dúvidas e escolher são tarefas que o paciente não pode evitar. A forma como ele participa nas escolhas pode revelar a maneira como se posiciona frente ao seu sofrimento e as limitações que este lhe impõe; situar-se passivamente, ainda que esta seja uma escolha, pode ser uma expressão de abandono dos seus ideais e da perda de sua capacidade de realizar alguma transformação. A escolha de um determinado objetivo e o engajamento com o mesmo são fatores que fazem por vezes eclodir uma angústia que faz parte de toda mudança; esta angústia pode ter muita utilidade se for convertida em um fator organizador na vida do paciente, e se este puder reconhecer os ganhos e verificar que pode enfrentá-la sem ser exterminado. Outro aspecto importante é que nada deve ser considerado como um dado a priori – incluem-se aqui as limitações, dificuldades, medos e quaisquer tipos de objeções. Tudo vai depender do contexto e de como esses aspectos emergem das relações com o paciente, e deverão ser enfrentados ou considerados como processos em desenvolvimento; se nos basearmos apenas nos diagnósticos e sintomas estaremos colocando o foco na doença e não no sujeito. 

Quanto ao planejamento, é nossa tarefa ficar atentos e alertar o paciente no caso de ele almejar objetivos muito ambiciosos, estes devem ser realistas, concretos e avaliáveis. É conveniente estabelecermos um planejamento para os objetivos de curto, médio e longo prazo, de preferência com uma certa flexibilidade, considerando que podem surgir mudanças ao longo da execução do projeto. O principal ponto no planejamento de objetivos é a participação de toda a equipe terapêutica multidisciplinar.

Para definir as ações para atingir um objetivo, muitas vezes nos ajuda o esboço de um esquema contendo os agentes e equipamentos[9] existentes e os necessários para levá-lo a cabo, e caso seja necessário ampliamos ou reestruturamos tais agentes ou equipamentos, ou ainda reduzimos as interferências externas que podem repercutir no nosso trabalho. Assim obtemos um mapa da rede existente e da rede necessária, que permite articular os agentes/equipamentos com um objetivo comum, e com isso cria se a possibilidade de deslocar a polaridade potência/impotência – na qual às vezes ficamos presos por sermos os agentes mais próximos na elaboração do projeto – para o conjunto da rede dos equipamentos, pois agora se trata de estabelecer fluxos, caminhos ou meios que passam a depender de parcerias, negociações e acordos que fazem do projeto um instrumento para atingirmos um duplo objetivo: a realização concreta do mesmo com a implicação dos outros atores/equipamentos e o ganho subjetivo que isto traz para o paciente. A vantagem de trabalhar com uma rede de agentes/equipamentos é que o planejamento pode ser feito em conjunto com a equipe, e cada uma das instâncias envolvidas pode prever as dificuldades a partir de seus lugares e recriar as possibilidades de enfrentamento das situações com um mesmo objetivo, atingir uma meta.

No tocante à metodologia, é importante um posicionamento adequado por parte dos profissionais no momento de estruturar como vão levar a cabo cada intervenção, é fundamental que suas intervenções não sejam confundidas, não invadam, nem sejam invadidas por intervenções de outras modalidades do tratamento, e são de suma importância as reuniões da equipe terapêutica multidisciplinar para organizar e avaliar o seguimento do projeto. Ainda faz parte da metodologia verificar quais metas estão sendo atingidas e a compatibilidade dos recursos em jogo. Avaliar permanentemente permite a correção do rumo e a reformulação dos mesmos levando em conta os problemas não previstos inicialmente ou que podem surgir no desenvolvimento do projeto, “antecipando e estabelecendo pequenos objetivos, como, por exemplo, os momentos de lazer que servem como descanso e para recobrar as energias e aproximar-se gradualmente da meta final estabelecida, fortalecido pelas já alcançadas”[10].

Muitas vezes, já com o desenvolvimento de algumas etapas de um projeto, o paciente começa a ganhar confiança e recuperar algumas das habilidades perdidas, e organizar sua vida de uma forma diferente da que fazia, demonstrando algum ganho de autonomia; este tipo de mudança reflete diretamente na dinâmica familiar do mesmo, criando um novo campo emocional contra o qual a família resiste, com o intuito de manter a velha dinâmica. Por estar em contato muito próximo com o paciente e seu entorno, o acompanhante terapêutico deve ficar atento para não ser capturado pelas cargas pulsionais da família, pois neste caso ficará submetido ao campo emocional que eles lutam por manter, e acabará por se transformar em um aliado da família, sendo levado a manter os mesmos comportamentos ali existentes. Ao perceber esta dinâmica familiar, o acompanhante permanece dentro do campo emocional, absorve, sente e suporta a tensão deste campo e opera no sentido de compreender sua função e origem, não se sujeitando a ela, mas mantendo vivo e produtivo o processo pelo qual passa o paciente, convocando a família a assumir sua responsabilidade nos conteúdos emocionais desencadeados pelas mudanças na vida do paciente.

Em se tratando das dificuldades, Romero[11] nos alerta que uma das que encontraremos em nosso percurso e que podem interferir na elaboração do projeto são os prejuízos e déficits depositados no paciente pela sociedade e pela cultura, os estereótipos que subestimam suas reais possibilidades, estabelecendo uma determinada distribuição de papéis e fazendo com que ele seja colocado em um lugar desprivilegiado. Os estereótipos, medos e o desconhecimento da patologia que modelam o senso comum podem vir a se constituir em fortes barreiras para o desenvolvimento de um projeto, e combatê-los é parte da tarefa ética do acompanhante.  

Romero ainda compara a elaboração de um projeto terapêutico com a elaboração de um projeto de viagem, pois requer um planejamento que nos permita desfrutá-lo desde o seu principio; além disso, ambos se propõem a percorrer um caminho, explorar espaços, aventurar-se, e isto se torna importante na medida em que o tempo não é em nosso caso um elemento significativo. Assim como em uma viagem, um projeto necessita de um destino, de como chegar a ele, com quem e quando começar.

Como acompanhar um projeto?

Em seu texto “La ternura”, Ulloa[12] situa a origem desta no cenário onde transcorre a relação inicial mãe-filho, no momento em que o pai está sendo introduzido, ou alguma pessoa que faça as vezes do terceiro. O autor diz que a ternura surge da separação ou do freio da pulsão sexual materna pela ação deste terceiro que se coloca como destinatário da descarga pulsional da mãe. É a presença deste terceiro que reforça e aperfeiçoa a ternura. A empatia e o olhar surgem como duas funções da ternura, por meio da primeira a mãe saberia das necessidades da criança e “ter um olhar para a criança é poder olhar com interesse amoroso algo reconhecido como distinto, alheio e necessitado, neste sentido não só é uma garantia de autonomia, mas uma base ética na relação com o outro”[13]. Quando o bebê começa a pesquisar e descobrir o ambiente a sua volta, sua mãe pode reagir festejando inoportunamente, de modo invasivo, ou deixá-lo aproveitando seu ensimesmamento; porém, se a empatia e o olhar forem utilizados de forma adequada, a mãe poderá permanecer na periferia, nem invasiva, nem ausente, mas presente possibilitando o surgimento no bebê de processos importantes centrados no progressivo descolamento auto-erótico que permite que ele continue a exercitar suas descobertas.

Khan[14] na perspectiva do desenvolvimento do ego, diz que no caso de pacientes com egos frágeis a atuação[15] é nosso maior aliado clínico, e afirma que se pudermos tolerar esta atuação e levar os pacientes a perceber o que eles estão nos fazendo, então há uma possibilidade de lhes dar condições para que tolerem o pânico interno que os obriga a assumir tal tipo de atitude, e que nestes casos nossa tarefa seria de desempenhar algumas das funções da mãe como, por exemplo, a de escudo protetor e ego auxiliar, e que o único critério para avaliar nossas respostas às necessidades dos pacientes seria o uso que faríamos da contratransferência como instrumento clínico de percepção. Ao colocarmo-nos numa posição de disponibilidade, como um ego auxiliar, sentiremos a tensão do processo clínico dos pacientes e seremos capazes de manter a distância psíquica, único recurso que lhes dá condições de registrar, perceber e relatar o que está acontecendo. Ou seja, o objetivo é assegurar a distância psíquica necessária a fim de poder tanto perceber, quanto reconstruir mentalmente a experiência.

 A tarefa de acompanhar o desenvolvimento de um projeto junto ao paciente não é a de inspecioná-lo passo a passo com um par de olhos críticos, nem fazer para o paciente, com o intuito de ajudá-lo, o que ele não consegue. O que os dois autores ressaltam é a importância da manutenção de uma distância necessária para o desenvolvimento do mesmo; como diz Green, “A proximidade excessiva é tão perigosa quanto a rejeição negadora”[16]. Aproveitando-nos da teorização de Ulloa, um bom lugar para o acompanhante pode ser o do terceiro, utilizando deste lugar as funções da empatia e do olhar – a primeira possibilitando simbolizar os medos, acolher as inseguranças, ouvir o não-dito, e a segunda o surgimento e reconhecimento da diferença, possibilitando a desalienação –, e ao servirmos como escudo protetor e ego auxiliar para o paciente, como propõe Khan, seremos capazes de manter a distância psíquica necessária para que ele possa perceber o que está acontecendo ao seu redor, e é neste espaço resguardado pela manutenção da distância que pode haver o encontro e a separação, onde se pode reconhecer a presença, a individualidade e a singularidade do outro; para isso é necessário estar em sintonia com o paciente, seu projeto e com as nossas próprias percepções, utilizando-nos da contratransferência como instrumento clínico.

No caso dos pacientes psicóticos, um projeto bem elaborado e acompanhado proporciona-lhes, além dos objetivos alcançados, um desenvolvimento psíquico que os ajuda a sair de um estado passivo para o de uma maior atividade e autonomia, e faz emergir aos poucos a capacidade de sonhar, pois sem esta não há projetos, oferecendo a chance de resgatar os aspectos perdidos e uma vida mais plena, recuperando o sentido de que algo pode vir a ser. 

Como as idéias aqui apresentadas, abordando alguns aspectos do campo de problemas que circundam o tema dos projetos, são baseadas na experiência pessoal com o acompanhamento terapêutico de pacientes psicóticos, naturalmente se espera que um sem-número de questões surja a partir das leituras pessoais; e não seria possível aqui listá-las, pois seria uma lista que “continua a cada encontro com os leitores; um leitor como um texto, infinitos”[17]. Que estas idéias possam ser úteis para o questionamento e a reflexão, o surgimento e o desenvolvimento de outras acerca da elaboração de projetos nesta prática.

Em sua etimologia projetar é lançar para a frente, mas também é fazer incidir, fazer a projeção de algo. Para concluir, vamos fazer incidir sobre a figura do acompanhante terapêutico a imagem do vizir[18], que, segundo o dicionário Aurélio, é “aquele que ajuda alguém a carregar uma carga”; pois, se no aspecto transferencial, somos portadores de uma carga pulsional intensa, no aspecto mais concreto “somos convidados, pela família, a dar uma mãozinha para segurar a barra”. Ao evocarmos a imagem do vizir, nos vem à mente o mundo das Mil e Uma Noites, em que Sherazade, a filha do vizir, frente ao risco iminente da morte, concebe a brilhante estratégia de criar, a cada encontro com o sultão, uma outra história. Aqui são ricas as metáforas; em seu trabalho, o acompanhante “encontra” seu paciente, e a cada encontro ambos “geram outras saídas”, “outras soluções” e “outras histórias”, por isso podemos dizer que cada acompanhamento também exige atenção e aprendizagem contínuas; cabe ao acompanhante saber reconhecer quem e o quê, no meio do risco de morte, não é morte, e (mantendo a distância ideal) poder preservá-lo e abrir espaço, preservando assim a vida.

Notas:


[1] WHITEHORN et al., apud FOULDS (2006).

[2] FOULDS (2006).

[3] FREUD apud KHAN (1984) p.56.

[4] VELHO (1980) p. 27-55.

[5] GREEN apud KHAN (1984) p. 8.

[6] STIERLIN (1979) p.15-20.

[7] GREEN apud KHAN (1984) p. 9.

[8] GREEN apud KHAN (1984) p.16.

[9] Conforme as definições de BAREMBLITT (1992; p. 151 e 170), entendemos aqui como agentes os diversos profissionais protagonistas das práticas de saúde, teoricamente produtores de subjetividades, e como equipamentos os complexos conglomerados destinados ao tratamento, que podem ser do Estado ou de entidades da sociedade civil, de grande ou pequeno porte.

[10] ROMERO (2002).

[11] Idem.

[12] ULLOA (s.d.)

[13] Idem.

[14] KHAN (1984) p. 86-7.

[15] O termo “atuação” tem aqui o sentido de ato inconsciente, impulsivo, que se exprime sob a forma de uma ação, conforme Roland CHEMAMA, Dicionário de Psicanálise, p. 8.
 
[16] GREEN apud KHAN (1984) p. 13.
 
[17] KANAAN (2002) p.206.
 
[18] Do árabe wazara, carregar. 
 

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

ABRAM, Jan. A linguagem de Winnicott. Trad. Marcelo del Grande da Silva. Rio de Janeiro: Revinter, 2000.

BAREMBLITT, Gregório F. Compêndio de análise institucional e outras correntes – teoria e prática. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 1992.

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CALVINO, Ítalo. As cidades invisíveis. Trad. Diogo Mainardi. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.

FOULDS, Margaret. “Contemporary psychosocial treatment of psychosis”. Australian family phisician, 2006; 35; 3: 100-104. Disponível em: http://www.racgp.org.au/afp/downloads/pdf/march2006/March_theme_foulds.pdf. Acesso em abril de 2006.

KANAAN, Dani Al-Behy. Escuta e subjetivação: A escritura de pertencimento de Clarice Lispector.  São Paulo: Casa do Psicólogo; EDUC, 2002.

KHAN, Massud. Psicanálise – teoria, técnica e casos clínicos. Trad. Glória Vaz. 2º edição. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1984. (Série Psicologia e Psicanálise)

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STIERLIN, Helm. Psicoanálisis y terapia familiar. Barcelona: Icária. 1979.

ULLOA, Fernando. “La ternura”. Disponível em: http://www.geocities.com/Athens/Parthenon/8314/ulloa.htm. Acesso em agosto de 1999.

VELHO, Gilberto. “Projeto, emoção e orientação em sociedades complexas”, in: FIGUEIRA, Sérvulo Augusto (org.). Psicanálise e ciências sociais. Rio de Janeiro. Francisco Alves, 1980. (Série Psicologia e Psicanálise)

WINNICOTT, Donald. Da pediatria à psicanálise. Trad. Davy Bogolometz. Rio de Janeiro: Imago, 2000. 

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