Omissão de Socorro

Em Omissão de Socorro, Olívio Tavares de Araújo retrata a loucura, esse mundo obscuro, tido como incompreensível e um dos medos primordiais da humanidade. É um dos velhos tabus da espécie, o da desrazão que, mesmo sendo estudada cientificamente e definida pela nomenclatura da psiquiatria, não deixa de nos assombrar, desde a Antiguidade. Afinal, o louco é o Outro da razão, mas esse outro é um espelho para nós, os ‘normais’.

Enfrentando essas contradições, Olívio, que é cineasta e crítico de artes plásticas, dá mais um passo num projeto de longo fôlego que define como um estudo de ‘minorias em situações-limite’. Já fez filmes como Profissão Travesti, O Olhar Triste (sobre soropositivos e doentes de aids), Fazendinha (sobre uma clínica de recuperação de usuários de drogas) e Casa do Caminho (sobre um asilo de idosos em Araxá). Agora, a loucura.

Olívio entrevista pessoas com problemas mentais e ouve também seus familiares. Faz as devidas evocações históricas desse fantasma da humanidade (que já gerou uma obra tão fundamental como História da Loucura na Idade Clássica, de Michel Foucault) e conversa com especialistas, com dois psiquiatras, em particular. Dessas entrevistas surgem revelações surpreendentes. Um desses profissionais conta que foi adepto das teorias antimanicomiais dos anos 1970, quando médicos como Cooper, Laing e Basaglia denunciaram a hospitalização como forma de repressão social. O ‘louco’ seria o Outro da sociedade e esta, por não suportá-lo, o teria segregado em instituições que, muitas vezes, não passam de depósitos de doentes e pessoas incômodas.

Mas o que surpreende é que este mesmo médico, antes adepto das teorias críticas antipsiquiátricas, agora confessa que mudou de idéia quando começou a enfrentar os casos na prática. E diz que o famigerado eletrochoque, símbolo da violência psiquiátrica nos anos 70, pode ainda hoje ser considerado a melhor terapia para deprimidos graves. Duas pessoas que sofrem de depressão confirmam as palavras do médico. Um dos médicos se lembra que houve um deslocamento na imagem do médico psiquiatra dos anos 50 aos 60-70 do século passado: ‘Nos anos 50, o médico era visto como um herói que acolhia os doentes e os tratava; depois, o psiquiatra vestiu a pele do vilão, como se fosse um agente da sociedade repressiva.’

Mas, é claro, esse deslocamento reflete a passagem de uma época para outra, quando tudo foi politizado – e de forma radical, o que não é um mal em si. Apesar dos exageros, os anos 60-70 acolheram a noção (em boa parte devida a Foucault) de que nem sempre o poder se concentrava com exclusividade no Estado, mas podia estar disseminado em várias instituições, com escolas, quartéis e, claro, manicômios. Essa crítica produziu seus efeitos e hoje, constata o cineasta, as clínicas se mostram menos repressivas e mais voltadas para o bem-estar do paciente. Mesmo que algumas delas ainda utilizem terapias criticadas, como o próprio eletrochoque.

Olívio constata que o paciente que dispõe de recursos pode recorrer a essas clínicas mais humanitárias, o que quase nunca é o caso dos doentes pobres. Estes carregam o duplo ônus da enfermidade mental e da carência de recursos. Assim, são chocantes as imagens de instituições públicas e seus internos maltrapilhos, caminhando com dificuldade e sem rumo pelo pátio em ruínas.

Não menos impressionantes são os registros dos doentes que não podem sequer contar com essa hospitalização precária e devem ficar sob os cuidados das próprias famílias, carentes elas também. O caso do motorista aposentado, que mantém duas filhas doentes presas em casa, é de cortar o coração. Não é fácil enfrentar esses olhares, que parecem vir de outra parte, mas que nos falam diretamente, num idioma familiar e estranho ao mesmo tempo.

 

Fonte: http://cultura.estadao.com.br/blogs/luiz-zanin/as-vozes-e-as-imagens-da-loucura/ 

 

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