As crianças e os adolescentes tristes

   

O que tem deixado crianças e adolescentes tão tristes e depressivos? Como resgatá-los? Especialistas orientam

Solidão, isolamento, falta de diálogo, angústia, ansiedade, bullying. São muitos os motivos que deixam crianças e jovens desacreditados da vida

por Lilian Monteiro 

Fragilidade emocional, frustrações, estrutura familiar. Crianças e adolescentes, que deveriam descobrir a vida de maneira prazerosa, ainda que com suas delícias e dores, sofrem e, muitas vezes, perdem a vontade de viver. Não deveria ser assim. Nos últimos dias, com a repercussão do jogo on-line Blue whale (Baleia Azul), uma competição cibernética criada na Rússia com “desafios” que atraem aqueles com problemas de autoaceitação e depressão, acenderam holofotes sobre o que se passa com esses jovens. De repente, todos se deram conta de que o suicídio, a automutilação, a reclusão, o medo, o isolamento e a depressão estão mais do que presentes no dia a dia deles. O que fazer para ajudá-los? Qual o papel dos pais, da família, dos amigos, da escola e da sociedade? São todos responsáveis? Como cada uma dessas esferas pode agir para resgatá-los da imersão nessa escuridão que os faz desistir de seguir em frente? 

Por que tanta tristeza? Por que tanto sofrimento? A série 13 reasons why (Os treze porquês), da Netflix, que estreou em streaming em 31 de março e virou febre entre os brasileiros, também dá visibilidade ao estado de espírito dos adolescentes. O seriado relata a história de uma jovem que se suicida, revelando ao longo de 13 episódios as causas que a levaram a essa decisão. Entre tantas, o bullying. Onde estão as falhas? O que é preciso corrigir? Como dar suporte emocional e equilíbrio racional para a criança e o adolescente? As perguntas são tantas... Hoje, o papel do Bem Viver foi ir atrás de respostas que possam ajudar a todos. Apontar uma direção que sirva como base e inspiração para quem precisa agir. Para a psicanalista Inez Lemos, as crianças estão crescendo num mundo chato, pobre de riqueza simbólica e desidratado. “A secura do mundo moderno as torna infelizes. Os pais estão confundindo suprir materialmente com educar, formar um ser humano. Gostoso é a convivência com gente. É rir, embalar em boas conversas. E não ter que se distrair o tempo todo diante de telas. Solidão e tédio. Tudo que não falta a eles. Diante disso, o suicídio é uma porta do paraíso.”

Inez Lemos afirma que o sofrimento exposto neste momento não lhe causa espanto. “Para mim, nenhuma novidade, pois há muito analisamos a ausência da função paterna e materna na educação dos filhos no mundo atual, quando tudo se tornou mais importante do que prestar atenção no filho. O celular, as mensagens, a academia, as amigas de espumantes. Enfim, o mundo sofisticou o consumo e banalizou a qualidade das relações interpessoais.” 

TÉDIO 

Para a psicanalista, o encontro ao vivo, olho no olho sumiu. “O encontro on-line substitui o contato físico. A tecnologia comanda as rodas de conversa, e o outro com sua presença crítica e verdadeira não interessa a ninguém. Com tudo isso, as crianças sofrem o isolamento físico. A relação com o corpo desaparece em função da relação com a máquina”, afirma.

Inez Lemos alerta que a permissividade dos pais, ao julgar tudo natural, é uma estratégia de fuga, de ludibriar a culpa por não estarem atentos e presentes no dia a dia dos filhos. “Eles estão abrindo mão de educar, de lutar em proporcionar um cotidiano interessante ao filho. A maioria padece no tédio, na falta de perspectiva. É quando o suicídio aparece como saída. Uma luz na escuridão da mesmice que comanda a vida dos engajados na mercadorização dos corpos e sentimentos. A morte é colocar um ponto de basta na angústia que se arrasta sem promessa de algo melhor.” Conforme a psicanalista, eles contam apenas com o jogo Baleia Azul como alívio para a alma desassossegada, pois “representam o fracasso de uma educação equivocada de um mundo em desequilíbrio e desarmônico. Um mundo frívolo e pouco autêntico. O Baleia Azul é o que falta na vida deles: desafio e emoção. Um lugar de pertencimento”. 

Sem receita

A vontade de acertar não é garantia de sucesso. Mas os pais têm de assumir o papel de guardiões de seus filhos e estabelecer uma relação de verdade e confiança com eles 

A vida reserva a todos momentos de acertos e desacertos. Muitas vezes, mesmo agindo para que tudo ocorra bem, são inevitáveis os tropeços. No entanto, só há dois caminhos: cultivar o sofrimento ou lutar para superá-lo. Essa dualidade faz parte da criação dos filhos. Não há uma receita pronta, única e garantida. Por isso, o desafio é enorme. O certo é que é preciso estar próximo deles, saber ouvi-los, tirar suas dúvidas, impor limites, dar liberdade e apoiá-los. Não é fácil. A relações-públicas Daniela Pérez, mãe de Luiza, de 10 anos, vive nessa corda bamba, lidando com a linha tênue de como criar a filha única no mundo atual, da era digital, da individualização, das relações voláteis, do bullying, da espetacularização da vida, das redes sociais e tudo de bom e ruim que elas exibem. “A inclusão digital das crianças é inevitável. Não faço parte do coro de quem é contra porque, simplesmente, faz parte dessa geração. O cuidado é saber prós e contras. Minha filha é incluída nesse processo”, afirma.

Daniela conta que Luiza ganhou o primeiro celular entre 8 e 9 anos por uma necessidade dos pais, já que ela ficava na casa dos avós ou da tia e eles queriam saber se ela tinha feito para casa, tomado banho. “Obviamente, o aparelho evoluiu para um smartphone e, quando criamos um grupo de WhatsApp da família, por ser muita comunicativa, a primeira neta menina, ela quis participar. Foi seu primeiro contato com o mundo tecnológico. O que, até então, me deixava confortável.” Mas eis que a filha a surpreende querendo entrar no grupo de WhatsApp dos colegas da escola. “Me deu um frio na barriga. E só disse OK com a condição de que eu participaria. E não foi uma questão de concordar. Expliquei, no grau de entendimento dela, sobre postagens, o que era legal e o que não era. Mas as crianças não são bobas e, depois de um tempo, o grupo esfriou. E elas criaram outro. Foi quando tive uma segunda conversa com a Luiza e ela me disse que ficava sem graça com a minha participação. Então, impus outra condição. Eu a liberava, mas iria monitorar as conversas do grupo e sem avisá-la. Assim, olho toda semana.”

É a maneira que Daniela encontrou para tentar proteger e orientar a filha no melhor uso dessa ferramenta. “Mas, em seguida, Luiza descobriu o YouTube. Foi meu segundo frio na barriga, já que o mundo dos vídeos é terra de ninguém. Tivemos outra conversa, sobre o que ver, o que é ou não adequado. Claro, monitoro. Sempre vejo o histórico. Acredito que meu papel é orientar e vigiar sem cercear, porque seria bobagem”, diz.

Daniela dá um bom exemplo de como estabelecer essa relação. “Um dia, uma blogueira de quem ela gosta postou um vídeo falando de uma briga com a mãe. Não gostei dos termos que ela usou e perguntei a Luiza se ela achava certo. Ela respondeu que a menina não deveria falar da mãe daquela maneira. Prefiro mostrar para minha filha o que ela verá no mundo do que correr o risco de ela aceitar como certo. Não perco uma oportunidade, seja no mundo real ou virtual. Se me deparo com uma criança dando birra no supermercado, vou querer saber o que ela acha. Levá-la a refletir. Eu a conduzo e a educo com o que eu acho certo como mãe. Não tem receita.”

Sobre o jogo Baleia Azul, Daniela conta que Luiza perguntou a respeito. Contou que colegas lhe disseram para não aceitar bala de ninguém porque podia ter droga. “Eu e meu marido, Lúcio Flávio (eles são casados há 15 anos), não escondemos nada. Explicamos. Achar que a criança é inocente, que não sabe nada é um grande erro. E se não for verdadeiro com ela, há o risco de não lhe perguntar mais. Falamos tudo de acordo com sua idade. Há coisas que Luiza conversa comigo e outras com o pai. Esperamos acertar. Se vai dar certo, só saberei daqui a alguns anos.” 

EXPLICA DEMAIS 

Mas o que Luiza acha de tanta conversa e regras? “Não me incomodo”, ela garante. E revela que “converso com minha mãe quando estou feliz, triste e com dúvida. Também falo com meu pai, mas acho que ela entende mais”. Aliás, ressalta Luiza, “minha mãe explica mais do que eu queria saber”.

Quanto às condições de uso do WhatsApp e do YouTube, Luiza é tranquila. “Ela verifica as minhas conversas. Às vezes, apago algumas, mas é por conta da memória. Mas ela pergunta e eu conto. No YouTube, sei que posso ver o que é apropriado à minha idade. Gosto dos vídeos de comédia. Quanto ao jogo Baleia Azul ouvi falar, não fiquei curiosa, minha mãe explicou que era ruim e, na verdade, não me interessa”, afirma. 

Em contraponto ao Baleia Azul e com o intuito de provar que a internet pode ser usada para viralizar o bem, nasceu o Baleia Rosa. O jogo (https://www.baleiarosa.com.br/) foi criado por um designer e uma publicitária de São Paulo, que não se identificaram, para estimular a valorização da vida. Os idealizadores dizem que acreditam que todos são capazes de promover o amor e o bem e têm capacidade de ajudar outras pessoas. O Baleia Rosa tem 50 tarefas, todas devem ser registradas nas redes sociais com a #eusoubaleiarosa porque o mentor está de olho! Para encontrá-lo, basta procurar por @eusoubaleiarosa no Facebook. Conheça algumas tarefas: 

1 - Com uma canetinha, escreva na pele de alguém o quanto você a ama.

2 - Desenhe com canetinha uma baleia rosa com uma frase ou palavra motivadora e poste em suas redes sociais.

3 - Se você está pronto para a próxima fase, escreva SIM nos comentários, se não, vá até o espelho mais próximo e se elogie por cinco minutos.

4 - Converse com alguém com quem você não fala há muito tempo.

5 - Escreva na sua timeline ou poste uma foto com a frase: “Eu sou linda/o - #baleiarosa”

6 - Pense na situação que o deixou mais feliz na sua vida... Pensou? Agora aproveite essa lembrança!

7 - Desenhe uma baleia rosa numa batalha de travesseiro e poste na sua timeline.

8 - Crie uma playlist que o deixa animado e troque com seus amigos.

9 - Use suas mãos para fazer carinho em alguém!

10 - Faça algo generoso, faça alguém sorrir.

11 - Faça um novo amigo.

PALAVRA DE ESPECIALISTA 

Olho no olho - Aparecida Nicolai Curto - diretora pedagógica do Colégio ICJ 

“Vivemos uma síndrome das crianças sem olho no olho. Consequência dos pais que não têm tempo para conversar, o que é próprio da vida moderna. O papel da escola é fazer um contraponto em relação às redes sociais e a grande mídia diante de uma geração sem planejamento, sem projeto de vida. O jogo Baleia Azul nos assustou, mas é importante destacar que crianças e adolescentes capturados por ele, seguramente, sofrem uma fragilidade antiga. O jogo é apenas uma armadilha para acelerar o processo. É preciso resgatar a autoestimo daqueles que veem os outros e não enxergam a si próprios. No ICJ, temos há mais de 10 anos a disciplina formação humana. Do quinto ano até os alunos de 13 anos, já que a partir dos 14 eles estudam filosofia. Nosso objetivo é fazer com que eles se tornem mais humanos, visíveis, vejam a vida como importante e que são seres únicos e indispensáveis. Mostramos o sentido da vida e que cada um deve honrá-la. Desenvolvemos atividades, entre elas com pessoas que têm doenças graves, em que perguntam: 'O que faz você ter muita vontade de viver?'. Aí, fazemos analogias com o universo deles. Em outra atividade, discutimos um vídeo em que uma menina chora porque terminou com o namorado. Ao ser chamada para uma selfie, enxuga as lágrimas, retoca a maquiagem. E diz que, já que vai postar uma foto, que o ex a veja linda. Assim, questionamos qual o jogo da vida: o da realidade ou o virtual?. Vivemos num mundo em que a vida é mais ter do que ser. Muitas crianças e adolescentes têm fragilidade na formação de valores e a saída é que os responsáveis encontrem tempo de presença. E que ela seja significativa.” 

Hora de escutar

Ainda que cada um exerça e tenha um papel com pesos diferentes, pais e escola têm de assumir a responsabilidade de orientar crianças e jovens num mundo em transição contra o sofrimento psíquico

Otimista por natureza, aquela pessoa que aposta no sujeito, na família, na escola e na humanidade, Jane Patrícia Haddad, mestre em educação, psicopedagoga e psicanalista, acredita que passamos por uma transição no mundo e no Brasil, onde valores e crenças são revistos. “Toda crise nos fortalece, nos reorienta e nos exige determinação. Este momento é muito profícuo, se conseguirmos nos reposicionar frente aos nossos filhos. Não sou defensora do discurso vazio de sentido de fim dos tempos como: o mundo não tem mais jeito, os jovens não querem nada com nada, as famílias estão desestruturadas. Enfim, estamos onde deveríamos estar, colocamos filhos no mundo muitas vezes nos esquecendo de que querer ter um filho é diferente de ser pai e mãe. Portanto, o momento é de escutar as novas gerações e retomar o leme dessa viagem. Há algo de novo que teremos que decifrar. Por que um número tão grande de crianças e jovens se encontra em sofrimento psíquico?”

Jane conta que certa vez escutou uma historinha que a marcou muito. “Conta essa história que uma pessoa perguntou a um índio de 101 anos, um xamã, como ele fazia para que sua tribo o escutasse, e ele dizia: – Eu ensino meu povo. – O que você ensina? – Quatro coisas: primeiro, a escutar; segundo, que tudo está ligado com tudo; terceiro, que tudo está em transformação; quarto, que a terra não é nossa, nós é que somos da terra. Então, vale lembrar que somos seres históricos, marcados por várias esferas, psíquica, biológica, social e espiritual. A questão não é tão simples. Tudo está ligado a tudo. Sociedade, família, escola. Escutar os novos sintomas, como o jogo Baleia Azul, o aumento de depressão em crianças e jovens, o abuso do álcool, o excesso de tecnologia, o desrespeito com os mais velhos, a busca incessante por um modelo de beleza, geralmente disseminado nas mídias, enfim, o que eles estão buscando? Talvez nem eles saibam e muito menos nós. Escuto muitas crianças e jovens que se queixam de não se sentir pertencentes àquela família, àquela escola, àquele grupo de amigos”, revela a psicopedagoga.

Para Jane Haddad, neste momento de tantos barulhos, sejam internos ou externos, vale aprender a ter uma escuta que ultrapasse a dicotomia, certo e errado. “Eles (crianças e jovens) precisam e devem ser escutados em sua dor de existir, isso é parte essencial de toda a nossa vida. Escutar o outro em suas questões é um bom começo para se ter em mente que somos todos parte de uma grande família chamada humanidade. E é por ela que devemos liderar. A vida para muitas crianças e jovens está no nível insuportável e quando os escutamos percebemos que eles falam sobre suas angústias sim. Talvez nós adultos não estejamos preparados para escutá-los, já que estamos tão imbuídos de que eles sejam lindos, felizes e bem-sucedidos.”

A psicopedagoga afirma que famílias e escolas são reflexos da sociedade em que estamos imersos e está faltando equilíbrio. Algumas pistas: “O momento é de transição e vamos decifrá-lo observando as referências familiares, os recasamentos, e como seus “novos” pais e mães entram nessas histórias. O impacto da tecnologia nas novas gerações, os fanatismos e discursos de ódio (embates sobre política, geralmente entre os pais), os pactos de amor baseados no ter, as promessas de satisfação a qualquer preço e principalmente a inabilidade de muitos adultos em colocar limites e uma certa pitada de frustração para seus filhos e filhas”. 

DESEJO, PROTEÇÃO E REALIDADE 

Jane Haddad explica que incomoda crianças e jovens não saber para onde eles vão e até onde eles têm que ser o que seus pais querem e desejam. “Certa vez, escutei de uma adolescente: 'Jane, esse mundo em que vivo não foi o mundo que os meus pais me apresentaram, e agora não sei o que devo fazer. Não fui preparada para ele’. Uma jovem que até os 15 anos só andava com um motorista e sua “babá”, uma jovem que foi poupada (por amor) de qualquer contato com a vida real, cheia de percalços e faltas. Seus pais fizeram tudo em nome do amor pela filha. E agora? Como explicar que sua melhor amiga sofreu um acidente aos 14 anos e morreu? Como arrancá-la desse golpe? Sugiro que desaceleremos nossos ritmos frenéticos de vida e reflitamos que mundo é esse que estamos apresentando aos nossos filhos. Onde eles podem tudo, onde a falta não entra em lugar nenhum, onde tudo e todos passam a ter ganhos. Onde estão entrando as perdas e os fracassos da vida bem vivida e sentida?”

A psicopedagoga e psicanalista cobra a noção de autoridade. Ela acredita que, para boa parte dos pais contemporâneos, exercer autoridade é quase sinônimo de ter que agradar aos seus “príncipes” e “princesas”, abrindo assim um longo caminho recheado de capricho e desresponsabilização frente às obrigações e de suas necessidades imediatas. “Converso com pais que admitem saber que não estão conseguindo cumprir suas funções, já que trabalham muito e sentem 'dó' de ter que deixar seus filhos sozinhos. Nossos filhos não poderão pagar essa conta. O momento requer um rebalanço do nosso tempo, da qualidade dele e de que mundo estamos ofertando às novas gerações: um mundo apenas virtual (onde tudo é possível?) ou um mundo real, onde as coisas acontecem com suas dores reais?. As novas gerações estão buscando incansavelmente uma causa, algo que lhes faça sentido, algo que lhes sirva de referência e, acreditem, elas não vão parar”. 

O que fazer? 

Sugestão aos pais: 

  • Escutem seus filhos.
  • “Percam” mais tempo com eles.
  • Conheçam o que eles estão assistindo e frequentando on-line.
  • Conversem e conversem.
  • Autoridade é o primeiro passo para a conquista de uma liberdade responsável.
  • Os pais devem buscar aplicativos de monitoramento aos acessos de seus filhos à internet. Isso já existe e é muito bem-vindo.
  • Proporcionem momentos agradáveis, sem ser em bares ou mesmo na frente de telas.
  • Em caso de separações, poupem seus filhos de ser pombo-correio, lembrem-se de que vocês são os adultos.
  • Reinventem-se. 

Sugestão aos professores: 

  • Abram rodas de conversas com os pais.
  • Parem de preparar seus alunos para o futuro, existe um déficit de presente. Deem sentido em seus conteúdos.
  • Abra o debate junto aos pais sobre segurança na internet. O momento é de sensibilização deste mundo em aberto por meio de um aparelhinho.
  • Reconhecer seu aluno (a), sempre comparar ele com ele mesmo, ressaltar as características e seu crescimento sempre comparado com ele mesmo.
  • Procurar saber o que seus alunos estão lendo, assistindo, vivenciando. E trazer dinâmicas nas quais os sentimentos possam ser colocados na roda, às vezes é importante por meio de “bilhetes” anônimos, uma caixinha...
  • Procurar agregar à matemática pesquisas para leitura de gráficos com os temas: com quem moram, sua maior característica, rotinas... Assim obtemos uma leitura subjetiva bacana, além do perfil das famílias.
  • Na educação infantil, sempre oferecer brinquedos com os quais as crianças possam simbolizar a relação familiar.
  • No ensino médio, rodas de conversas com profissionais de diversos saberes sem o intuito de direcionar, e sim de escutar e abrir horizontes.
  • Lembrar que o afeto adquire importância essencial para o processo ensino-aprendizagem. É na matriz simbólica estabelecida a partir da linguagem e da fala que constituirá ou não o sujeito. Dar voz e vez a cada um, permitir que eles se façam ser escutados, mesmo em seus silêncios. 

Laços familiares 

Ao pensar na tristeza de crianças e adolescentes surgem muitas perguntas, dúvidas, medos e certo espanto. Afinal, são fases da vida que deveriam ser mais leves, apesar das incertezas descobertas com o amadurecimento. A psicóloga Cínthia Oliveira Demaria explica que, “antes de qualquer tristeza, é preciso discutir a fragilidade dos laços familiares atuais. Os pais não são mais próximos dos filhos e eles perderam essa referência, que foi transferida a terceiros, seja do mundo real ou virtual. O enfraquecimento desse laço fez desaparecer um pouco a figura representativa da mãe e do pai”. 

Somado a isso, alerta a psicóloga, está a “culpabilização dos pais que repõem a ausência com os filhos nos moldes da sociedade capitalista (consumo), aumentado com a tecnologia. Assim, estudos mostram que muitas crianças e adolescentes entendem a internet como fonte de aprendizado maior do que a sala de aula e os pais. Antes, pais e professores eram essa fonte”. Cínthia enfatiza que, se por um lado a internet aproxima as pessoas, permite o contato de pais e filhos que moram separados, por exemplo, o excesso é prejudicial. E é preocupante quando ela vira referência, ainda mais porque é tentadora.

A tentação pode se transformar em armadilha diante da fragilidade. “É a dificuldade de lidar com a frustração. Quando se deparam só com as vidas perfeitas das redes sociais, o mito da felicidade, eles se questionam por que a vida deles também não pode ser. Eles sonham com o que veem e, para complicar, a absorção do mito da felicidade é inconsciente. Essa frustração muitas vezes não é verbalizada dentro de casa, mas na internet, na figura de uma pessoa virtual. Às vezes, as blogueiras 'perfeitas' são mais referência do que os pais. Aliás, sabe-se mais da personalidade da internet do que o que ocorre dentro de casa”, alerta Cínthia Demaria. 

INTOLERÂNCIA

De acordo com Cínthia Demaria, somos seres de falta e o problema é que cada vez mais nos tornamos intolerantes. “Vive-se o imediatismo, ninguém tolera mais esperar nada a longo prazo. Se um adolescente resolver ser youtuber hoje, amanhã já quer o patrocínio da Coca-Cola e dinheiro na conta. Se não vem, nasce a frustração. Somos sujeitos do desejo, ele nos move, mas temos de aprender a lidar com ele e com sua falta. Não se pode ter tudo. O problema é que ninguém quer falar sobre a falta, os pais não querem falar. Os filhos podem não externalizar porque não estão a fim ou por vergonha. Mas o responsável tem obrigação de criar um contato visual, ter um diálogo aberto e, de acordo com a idade, monitorar sim. Não precisa ser autoritário, mas ter autoridade. Afinal, são pais.” 

'Não dá pra não falar'

Tristeza, depressão, suicídio. Especialistas alertam que é preciso falar sobre esses assuntos sem medo para que possam ajudar crianças e adolescentes a externalizar seus sentimentos

“Passeava com Aninha, minha netinha que acaba de fazer 7 anos, junto com uma amiguinha. As duas tagarelavam animadamente quando, de chofre, Aninha me pergunta o que eu poderia dizer a ela sobre o desafio do Baleia Azul... Perguntei o que ela sabia. – “É um jogo da internet, meus coleguinhas estão falando disso. O primeiro desafio é desenhar uma baleia no braço com uma faca e, o último, se atirar de um prédio! Mas eu é que não faço isso!” – “Nem eu!”, reforçou a outra menininha.” Essa conversa é de uma criança pra lá de antenada, que não se cansa de surpreender a avó Gilda Paolielo, psiquiatra e psicanalista.

Um mote para muitas reflexões. “Nos últimos meses, os pais foram assombrados pelo fantasma do Baleia Azul e pela série 13 reasons why. Os dois apelos midiáticos têm estatutos diferentes, claro. O primeiro, boato maldoso espalhado no Facebook, um caso de polícia; o segundo, uma obra que provoca a discussão de um ato. Ambos são endereçados a adolescentes e tocam fundo em um tema que é tabu até no meio médico: o suicídio. E, mais drástico ainda, o suicídio de adolescentes.”

A médica alerta que os efeitos mundiais do Baleia Azul devem ser considerados fatos reais, um desafio aos pais. “Onde há baleia há oceano. Se o suposto jogo causou tanto alarde, não podemos desconsiderar que ele deve ter caído em mar favorável: a fragilidade dos lares, com paredes ineficazes e que é invadido, a todo momento, pela rede social virtual, para a qual a distância não existe. Se, por um lado, o mundo virtual cria possibilidades de circulação social, deixando os pais tranquilos pelo filho estar seguro em casa, é importante lembrar que essa proteção é ilusória, pois abre uma série de outros estímulos e propostas desconhecidas.”

O antídoto? Para a psiquiatra, os pais devem estar próximos ao filho, abrindo canais por onde circulem o diálogo, a mútua confiança, sem proibições, sem autoritarismo, promovendo respeito e cumplicidade em ambos os lados. “Difícil sim, mas possível e eficaz. Estamos na época da 'pós-verdade', 'fatos objetivos têm menos influência em moldar a opinião pública do que o apelo à emoção e crenças pessoais', nos diz a Wikipedia. Nietzsche, no século 19, já havia antecipado essa visão, quando postulou que 'não há fatos, apenas versões'. Portanto, mais do que nunca, é preciso triar o que cai na rede e também triar o que se compartilha num link, para não serem criados ninhos de baleias azuis. Claro que a tecnologia é um avanço utilíssimo, indispensável e sem precedentes. Mas pode ser um risco quando mal utilizada”, afirma.

E as 13 reasons why? “Não nos parece surpresa que essa metáfora do sofrimento adolescente tenha se tornado extremamente popular também entre adultos por possibilitar externar pensamentos 'proibidos' de morte. Entretanto, o que mais se discute sobre a série é se ela pode causar danos a pessoas fragilizadas, se deve ser vista por adolescentes e, sobretudo, se pode causar o 'efeito Wherter', induzindo pessoas ao suicídio, como supostamente ocorreu no século 19, após a publicação do romance de Goethe, no qual o jovem Wherter comete o suicídio como resposta a uma paixão malsucedida. Se duas crianças de 7 anos são capazes de responder não à balela do Baleia Azul, temos que pensar que não é qualquer pessoa que se sente ameaçada pelas questões expostas”, pondera a psicanalista. 

SEM TABUS

Entretanto, Gilda Paolielo diz que não podemos ser simplistas frente a questões tão delicadas. “O lado bom da história é que ela coloca na ordem do dia, e em rede, temas que, já dissemos, são tabus e nos obriga a tocá-los. O que não é dito fica maldito. Então, vamos atacar os fantasmas. A adolescência é um momento crucial na vida: o sujeito deixa de ser criança e ainda não é adulto, perde a chance de aprender errando, é submetido a exigências que nem sempre pode cumprir e não tem direitos claramente estabelecidos, apesar de deveres sim. Seu corpo está em transformação e isso o assusta, tem impulsos e desejos que o ameaçam, a sexualidade muitas vezes é um enigma para o qual não tem resposta, e tem vergonha e receio de compartilhar essas dúvidas. Além disso, vive em um meio cruel, que sente prazer em botar o dedo nessas feridas por meio do tão propagado bullying. Será que é fácil viver em paz com tantos tormentos?”

Por outro lado, a psiquiatra explica que o adolescente gosta de desafios e o desconhecido o fascina. “Ainda bem, pois é isso que fará com que ele desbrave a vida. Mas, neste momento, ele precisa de uma bússola que não lhe é oferecida pela natureza. Quem pode ajudá-lo são os adultos que estão por perto. Mas sabemos que, muitas vezes, os adultos têm pontos nevrálgicos e se sentem colocados à prova e, sobretudo, despreparados para dar respostas. Qual a saída? Peçam ajuda! Conversem, participem de discussões virtuais e presenciais, mas não se omitam, não se acovardem, não se acomodem. Uma das funções dos filhos é questionar os pais. Adolescentes devem ver 13 reasons? Sim, mas acompanhados pelos pais. Será um ótimo mote para tocar nas questões cruciais de cada um, ajudando o jovem a encontrar suas respostas, amparando sua fragilidade e ajudando os pais a crescerem”, ressalta.

Gilda Paolielo afirma que o suicídio é a segunda causa mais frequente de morte na adolescência. Então, é preciso colocar o suicídio na agenda pública. “As pessoas devem entender que ele é uma possibilidade cada vez mais factual, mas pode ser prevenido. É importante que a família possa reconhecer 'gatilhos', às vezes sutis, como mudanças de comportamento, desinteresse por antigos hábitos e diversões, conflitos no ambiente familiar ou escolar, rompimentos amorosos ou de amizades, bullying ou crises de identidade sexual. Não ignorem ou menosprezem nenhum desses itens presentes no cotidiano. O suicídio faz parte da vida, mas pode ser evitado se soubermos ler as mensagens, muitas vezes veladas e silenciosas, emitidas por quem tem tanta dificuldade em pedir socorro.” 

Um convite a pensar

No silêncio do quarto, no choro rompido, no desânimo de acordar para mais um dia, crianças e adolescentes vêm adoecendo. Renata Feldman, psicóloga e psicoterapeuta humanista com foco nas relações afetivas, alerta que diferente da tristeza que surge em determinados momentos, vivenciada como sentimento, reação, afeto ou estado de espírito, inerente à condição humana, a depressão é doença grave. “Apesar de não 'combinar' com o colorido universo infantil das brincadeiras, do riso e da fantasia, a patologia tem se manifestado de forma mais intensa nesses nossos tempos pós-modernos”, diz. Para além da genética e da hereditariedade como causas da depressão, ela ressalta que é preciso considerar a experiência de vida dessas crianças/adolescentes e a influência de fatores ambientais: ansiedade, estresse, perdas em geral (separação dos pais, mudança de escola ou cidade, doenças e mortes na família).

Em tempos pós-modernos, sentimos justamente a falta dele: do tempo. “Correria, agendas cheias, excesso de estímulos e atividades recaem também sobre o universo infantil, produzindo estresse e ansiedade, porta de entrada para a depressão”, avisa Renata Feldman ao lembrar que, com tantos estímulos e compromissos, há uma ênfase voltada para o pensamento, em detrimento da emoção e sua expressão.

“Regras a serem cumpridas, desempenhos a serem alcançados, pressões e cobranças permeiam o universo infantil e adolescente, gerando ansiedade, angústia e isolamento. Muitas vezes há um grito calado, abafado, dizendo 'eu não quero, eu não dou conta', e o resultado é uma sensação de fracasso que contribui para afetar a autoestima. E como as crianças têm mais dificuldade em reconhecer e nomear os sentimentos, vão sofrendo em silêncio ou, quando compartilham seu problema com os pais, costumam ouvir deles: 'Isso é bobagem, chora não, vai passar!'. Muitas vezes, por não dar conta de verbalizar o que se passa no coração, psicossomatizam por meio de dores as mais diversas: dor de cabeça, dor de barriga, enjoos, náuseas, bruxismo etc. O que pode atrasar ou confundir o diagnóstico da depressão.” 

CULPA

Renata Feldman avisa que a rotina intensa dos pais impede maior tempo de convívio, diálogo e brincadeiras em conjunto. “É preciso entrar no mundo deles, dar colo e acolhida, afeto e amparo. As mães, especialmente, precisam trabalhar sua culpa, traço significativo que detectei em minha pesquisa de mestrado ('As várias faces da mãe contemporânea') e reconhecer que fazem o que dão conta. E que compensá-los com presentes e concessões não preenche o vazio que se instala. É preciso dar amor, transmitir valores e colocar limites. Um caminho é compartilhar com os filhos sua história, suas dificuldades e conflitos quando crianças e adolescentes. E dizer-lhes que é possível crescer e transformar sempre: nenhum problema fica com a 'imagem congelada', nenhum problema dura para sempre.”

A psicóloga e psicoterapeuta revela que em seu consultório, no atendimento a crianças a partir de 9 anos, se depara com temas como medo, ansiedade, busca pela perfeição, autoestima em baixa, conflitos familiares e escolares, dificuldade de expressar e nomear sentimentos, déficit de atenção e depressão. “Com tanta dor internalizada, elas precisam falar, ouvir e acima de tudo se escutar. Precisam de uma escuta que as compreenda e de um afeto que as façam se sentir amparadas. Se não conversarem com seus pais, vão conversar com líderes de jogos digitais. Mas o problema não são esses jogos, mas como as crianças e adolescentes respondem a eles. Mentes sadias buscam, com certeza, outros tipos de caminhos e desafios para a sua vida.”

Fonte: https://www.uai.com.br/app/noticia/saude/2017/05/08/noticias-saude,206259/o-que-tem-deixado-criancas-e-adolescentes-tao-tristes-e-depressivos-c.shtml 

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