A estratégia dos medicamentos

 

Estudo Demonstra Como os Psicofármacos são uma Estratégia de Controle da População

Através do tripé : "dependência", "assistencialismo" e "individualismo" 

Por Camila Motta   

O estudo “A Medicalização como estratégia Biopolítica: Um estudo sobre o consumo de psicofármacos no contexto de um pequeno município do Rio Grande do Sul”, foi realizado pela mestra em psicologia, Vivian Tatiana Galvão Ignácio e pelo professor associado da UFRGS, Henrique Caetano Nardi, como resultado da pesquisa de campo conduzida no município de Boa Vistas das Missões, interior do Rio Grande do Sul.

O objetivo do estudo foi compreender como o consumo de psicofármacos se validou como parte das tecnologias de si* forjada pelo dispositivo** de medicalização. A análise identificou o dispositivo de medicalização como uma estratégia biopolítica, sustentado pelo tripé: “dependência, assistencialismo, individualismo”.

A metodologia para a pesquisa foi a verificação de registros, memórias, documentos e a utilização de entrevistas contendo 18 questões objetivas (com categorias como consumo, gênero, escolaridade, ocupação, renda, tempo de uso, etc.) e 06 questões de livre expressão que compuseram as narrativas. Estas foram consideradas de tal forma reveladoras, que os autores priorizaram as abordagens decorrentes desta análise, deixando de fora deste artigo os dados quantitativos.

Para Foucault a biopolítica significa a ação do Estado no controle dos corpos e ao mesmo tempo no controle da população. Sendo assim, a medicalização também assume essa dupla faceta. Como dispositivo biopolítico, a medicalização surge na modernidade, nos séculos XVII e XVIII, através das medidas de saneamento coletivo como meio para banir pestes, infecções, e doenças ao tratar água e o ar, ademais da separação de doentes, prostitutas e desocupados do centro da cidade, sendo levados para os arredores da cidade. 

Através da narrativa dos participantes da pesquisa foi possível encontrar evidências no sentindo que esses sujeitos atribuem à noção de saúde, demonstrando que a configuração do poder da medicalização está construída sobre um tripé biopolítico: “dependência”, “assistencialismo” e “individualismo”.  Dessa forma, os entrevistados quando solicitados a falar sobre o sistema de saúde local, definiram um bom sistema de saúde como sendo aquele que “beneficia as pessoas” ou ainda “oferece tudo que eles precisam, não deixando faltar nada”. Chama a atenção o fato de nenhum entrevistado fazer referência aos programas de prevenção, ao acentuarem sobretudo o tratamento. Os psicofármacos fazem eco a esse tripé, substituindo formas mais reflexivas a respeito dos modos de vida.

A utilização de psicofármacos atua como uma máquina de fazer calar, instalando a tolerância e controlando as emoções de tal forma que dificilmente serão instaladas formas de resistência coletivas. Assim sendo neutralizados, os sujeitos não se preocupam consigo próprios ou com os outros, produzindo ao mesmo tempo modos individualizantes e totalizantes de vida.

“Eu não sei ao certo se isso é depressão porque já vi pessoas piores do eu me sinto, mas tem uma tristeza que veio vindo, veio vindo e nunca mais se foi. Tem também o fato de que aqui em Boa Vista a gente vive muito isolado de tudo, das pessoas. Tem o trabalho, a igreja e só. Cada um vive sua vida, cuida do seu trabalho, do seu patrimônio e pronto. Eu também vivo assim, mas gostaria que fosse diferente, gostaria de conviver mais com as pessoas, saber o que acontece do lado de fora da minha casa, entende? Os remédios para dormir me ajudam bastante a enfrentar isso, e a gente ganha, para isso temos assistência, não posso reclamar.” (Agricultora, 39 anos)

O consumo de medicamentos é tão imperativo que os profissionais de saúde se encontram aprisionados numa engrenagem biopolítica da gestão de saúde.

“eu já comprei muita briga trabalhando aqui por conta deste problema da medicalização, já disse que não adianta ‘entupir a farmácia’ de remédio e não criar programas eficazes para uma conscientização. Mas a coisa parece vício e não muda. Por exemplo, temos muitos alcoolistas, aí tem os medicamentos, e isso ajuda até certo ponto, mas precisava ter grupos de apoio ao dependente e à família. Isso seria mais efetivo, garantiria mais estabilidade, é diferente do que fazemos que é solução circunstancial e não contínua. Mas vai convencer os gestores disto… Só nos resta trabalhar com o que temos.” (Médico do sistema local)

Assim também como os usuários que se movem através da lógica medicamentosa.

“O neurologista não quis dar o laudo do meu filho para encostar ele como inválido, claro que ele tem problema na cabeça, faz dez anos que tá na segunda série… não é muito que daria pra fazer com esta aposentadoria, mas já ajuda com os remédios. O que a gente recebe sempre [do posto] são os remédios para a cabeça, disso não posso reclamar, nunca faltou o gardenal.” (Usuária do sistema de saúde local)

Dessa forma, o estudo concluiu que no município de Boa Vistas das Missões, existe uma autenticação dos modos de cuidado nos quais os medicamentos, e os psicofármacos, ocupam o lugar central. Os psicofármacos prometem o afastamento do sofrimento de diversas origens (depressão, ansiedade, solidão, etc.) dentro de uma lógica mercadológica (compra-se saúde ao consumir medicamentos), e diminuindo as possibilidades de emergência de formas coletivas de enfrentamento do sofrimento. Portanto os psicofármacos são instrumentos da biopolítica para o silenciamento dos corpos, contribuindo para formas de vida individualizantes, legitimando formas de governo paternalistas, onde predominam modos repressores e controladores de gestão da saúde, e consequentemente, predomina a dependência dos usuários. 

Para ler o artigo completo: A MEDICALIZAÇÃO COMO ESTRATÉGIA BIOPOLÍTICA: UM ESTUDO SOBRE O CONSUMO DE PSICOFÁRMACOS NO CONTEXTO DE UM PEQUENO MUNICÍPIO DO RIO GRANDE DO SUL 

Fonte: https://madinbrasil.org/2018/02/estudo-demonstra-como-os-psicofarmacos-sao-uma-estrategia-de-controle-da-populacao/

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