A medicina baseada em evidências e os interesses corporativos

 

 

A SÍNDROME DE ESTOCOLMO DA MEDICINA

Por André Islabão em Medicina e saúde 

Em agosto de 1973 um homem portando uma metralhadora invadiu um banco na cidade de Estocolmo, capital da Suécia, e fez quatro reféns. Durante o cerco policial transmitido em rede nacional pela TV sueca, uma coisa chamou a atenção de muita gente: os reféns começaram a defender o criminoso e temer a própria polícia que estava lá para resgatá-los. Esta estranha resposta das vítimas ficou conhecida como síndrome de Estocolmo. Nela, a vítima do sequestro desenvolve um apego patológico em relação ao seu algoz e passa a protegê-lo em vez de tentar escapar de seu controle. Depois disso, a síndrome foi vista em várias outras situações de sequestros no mundo todo, mas quase 50 anos depois, ela ainda leva o nome da cidade onde foi primeiramente identificada. 

Em 2016, um artigo de John Ioannidis ganhou bastante repercussão. Nele, o autor utiliza um tom de desabafo em forma de carta ao amigo David Sackett – principal nome entre os fundadores da Medicina Baseada em Evidências (MBE) – na qual ele afirma que o movimento teria sido sequestrado por interesses corporativos que não faziam parte das ideias originais de seus fundadores. Assim, um movimento que originalmente questionava a falta de rigor científico da medicina de então e tentava melhorar a qualidade das evidências científicas (ao mesmo tempo em que incorporava à tomada de decisão clínica a experiência dos profissionais e os valores dos pacientes em nível de igualdade) passou a servir de ferramenta para que a indústria assumisse o controle da pesquisa médica e passasse a criar uma nova narrativa científica distorcida em favor do excesso de intervenções e de custos cada vez mais impraticáveis. 

Quem acompanhou atentamente o texto já deve ter feito a ligação entre os parágrafos anteriores e antecipado a conclusão lógica: a MBE (e, portanto, a medicina como um todo, já que a MBE é seu paradigma científico atual e amplamente aceito) não apenas foi sequestrada pela indústria, como também desenvolveu uma verdadeira síndrome de Estocolmo em relação ao seu algoz (a indústria farmacêutica). Se a medicina reconhece que não é adequado que a pesquisa científica esteja exatamente nas mãos da própria indústria que testa e vende seus mimos terapêuticos, então a reação esperada da medicina deveria ser o rompimento dessa relação o quanto antes. O fato de a medicina permanecer em silêncio quanto ao fato de ter perdido o controle sobre a ciência médica que embasa as suas atividades e até mesmo defender essas relações espúrias que distorcem a ciência é algo difícil de justificar. 

Uma das maneiras de interpretar a síndrome de Estocolmo original é que a reação patológica demonstrada pela pessoa sequestrada esteja relacionada com o instinto de sobrevivência. O mesmo talvez ocorra com a medicina ao imaginar que este rompimento com a indústria – ou, pelo menos, uma mudança de relação em que a medicina retome o controle das mãos da indústria – pudesse colocar em risco toda a ciência médica. Porém, talvez a verdade seja exatamente o contrário. Nada ameaça mais o futuro da medicina e da ciência médica do que manter este controle da pesquisa nas mãos da indústria farmacêutica. Talvez o maior obstáculo para a mudança esteja dentro da própria medicina, entre aqueles que de algum modo obtêm vantagens pessoais com a manutenção deste status quo. Ciência sem credibilidade não tem serventia nem futuro. Ou, como disse o também médico François Rabelais: “Ciência sem consciência não passa de ruína da alma”. 

[1] http://www.datascienceassn.org/sites/default/files/Evidence-based%20Medicine%20has%20been%20Hijacked%20-%20Report%20to%20David%20Sackett.pdf  

Fonte: https://andreislabao.com.br/2022/03/20/a-sindrome-de-estocolmo-da-medicina/

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