Como o racismo afeta a saúde mental

 

 

“É PRECISO RACIALIZAR A HISTÓRIA”

Por Ana Cláudia Peres

Entrevista com  Emiliano de Camargo David 

O psicólogo Emiliano de Camargo David é um estudioso da discussão sobre racismo e iniquidades em saúde, em especial dos reflexos dessa relação para o campo da saúde mental. Integrante do Instituto AMMA Psique e Negritude, de São Paulo, ele afirmou, durante o Abrascão, que “a reforma psiquiátrica é branca”, e fez um convite ao “aquilombamento”, por considerar os quilombos uma experiência radicalmente brasileira que deveria ser valorizada em toda a sua potência. Nesta entrevista à Radis, ele amplia a discussão. 

Como o racismo afeta a saúde mental?

Penso que o racismo humilha. Essa, inclusive, foi uma campanha do Conselho Federal de Psicologia: “O racismo humilha e humilhação faz sofrer”. É necessário tomar o racismo como violência e pensar que, como qualquer outra violência, essa também pode gerar muito sofrimento. Com um grande cuidado para não patologizar, porque o racismo vai gerar sofrimento, mas não necessariamente doença. Pensar em termos de doença seria perigoso, geraria medicalização, diagnósticos. Isso a gente não quer. Mas quando entendido enquanto uma violência, assim como todas as violências, ele é passível de gerar sofrimento psíquico. 

O quanto a naturalização do racismo na sociedade brasileira contribui para o aumento da violência e do sofrimento assim como para alimentar práticas racistas?

Não é nova a ideia de que o brasileiro tem preconceito de ter preconceito. Essa é uma ideia antiga do Florestan Fernandes [sociólogo, autor de "Corpo e alma do Brasil"]. A gente é muito forjado pela dimensão do processo escravocrata no Brasil e pelo mito da democracia racial. Então, essa naturalização do racismo — e, logo, do preconceito racial — existe como se fosse algo tácito, como se fosse um dado. Aqui, o racismo não tem apenas uma dimensão institucional. Ele é estrutural. É o racismo que estrutura a sociedade brasileira. Então, a gente ainda precisa resgatar a ideia de se autorizar enquanto um país racista para, a partir daí, promover práticas antirracistas. 

A gente pode dizer que a razão do racismo é a manutenção de privilégios?

Inclusive. Inclusive e fortemente. Essa é uma das ideias que compõem o racismo no Brasil, mas não só. A gente está falando também de populações indesejáveis, de uma política de branqueamento, a gente está falando de um entendimento de corpos que não são bem-vindos, de raças que são tidas como anormais e que precisam ser exterminadas. Então, sim, o racismo é estruturado no privilégio da branquitude, mas não apenas. Há que se enfrentar o discurso sobre o racismo inclusive problematizando a ideia de vulnerável e de minoria. Nós negros não somos minoria, somos 53% da população brasileira, embora a ideia de minoria esteja ancorada em outra coisa. Mas é importante problematizar isso. É impossível chamar de vulnerável uma população que sobreviveu ao processo escravocrata, que sobreviveu a genocídios, que ainda se faz presente, ativa, que produz cultura, alegria, que produz saber. Essa ideia de vulneráveis é também uma ideia que nos leva para as franjas e nos coloca em um lugar que é periférico. É preciso brigar muito contra essa estigmatização. Porque, sim, a Europa é tomada como o centro do mundo, logo, a população branca é o centro do mundo. Mas a gente precisa racializar a história. 

Você afirmou que “a reforma psiquiátrica é branca”. Por quê?

Eu digo que a reforma psiquiátrica é branca no seu componente ético-político. Ela cuida de negros, porque 70% dos usuários do SUS se autodeclaram pretos ou pardos; os Centro de Atenção Psicossocial (Caps) e, em especial, a Estratégia de Saúde da Família, estão nos territórios periféricos. Mas a reforma psiquiátrica não racializa e não percebe a cor desses territórios e dessa população. Ela é branca quando ensurdece para o movimento negro que participou de sua criação. E aí pretende-se fazer projetos terapêuticos singulares. Mas se esse projeto terapêutico não discute raça, se não discute gênero, ele não é singular. Para um campo que discute tanto a diferença como a luta antimanicomial, a dimensão racial é inviabilizada. De alguma forma, esse é um grupo que também está estruturado no racismo estrutural, que pouco dialogou com os modos de cuidar da loucura ou com os saberes afro-diaspóricos e afro-indígenas. Por exemplo, a gente não dialoga muito — aliás, dialoga quase nada — com os territórios negros, as casas de axé, os espaços de terreiro, para saber como eles entendem determinados fenômenos. Um exemplo que é um contrassenso: na atenção básica, a gente traz para a saúde os saberes tradicionais da medicina chinesa, mas a gente não se debruça sobre os saberes e tradições afro-brasileiras. Há um grande desconhecimento da cultura e das formas de cuidado e dos saberes gerados pelas populações tradicionais. 

É disso que você está falando quando propõe um “aquilombamento” dos Caps?

É possível estender essa ideia para outros espaços da vida? Eu acho que sim, porque o quilombo já era o espaço do comum, ainda que sustentado numa briga abolicionista. E se a gente quer um processo de ampliação do laço social, de acolhimento dos ditos indesejáveis, dos loucos, das prostitutas, dos drogados, um espaço de inclusão de pessoas, a gente vai precisar pensar isso. O quilombo foi uma das estratégias mais potentes da nossa cultura. Ele já trazia em si o acolhimento. O quilombo não é algo identitário, do negro, do aparte. É algo nosso, radicalmente brasileiro — protagonizado por negros, sim, mas que, não à toa e racistamente, a gente nega como parte da história. (A.C.P.)  

Fonte: https://radis.ensp.fiocruz.br/index.php/home/entrevista/e-preciso-racializar-a-historia

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