Concepções éticas

 

  

Em nossa prática clínica estamos sempre compondo o conjunto olhar/escuta/intervenção orientados por uma abordagem psicodinâmica e que toma como eixos: o individual, o coletivo, o cultural, o social e o transcendente, permeados pelas teorias de alguns autores da psicanálise, das ciências humanas e da literatura.  

Esta combinação, em constante atualização, tem como finalidade compor um conjunto olhar/escuta, humanizado/humanizante, que possibilite discriminar o individual/cultural e criar oportunidades de mudança à medida que se torna possível identificar a motivação das principais escolhas da vida e as estratégias para a sua realização, aliado a isso a conexão com o mundo interno possibilita: aprimorar os recursos individuais e a auto-imagem, alinhar princípios e valores e redefinir o pressentimento de futuro, num caminho crescente de desalienação e integridade.

As Psicologias

A psicologia é uma ciência que se divide em várias especialidades e cada uma delas pode estar embasada por diferentes linhas teóricas, o que abre um enorme leque de possibilidades e de diferenças entre os profissionais, para além destas particularidades com o desenrolar de sua prática o profissional vai criando e adotando um estilo próprio, de forma que mesmo que compartilhem a mesma especialidade e linha teórica, dois profissionais dificilmente terão pensamentos e atitudes similares. Por isso podemos dizer que existem tantas psicologias quanto os psicólogos que as praticam. 

A Psicologia Clínica

A palavra clínica provém do grego klinikós = cama, assinalando um trabalho sobre um paciente específico. Com relação à psicologia clínica nossa concepção alinha-se com a visão de autores como Bohoslavsky, Bleger e Ulloa, que a caracterizam como uma estratégia de abordagem à conduta dos seres humanos.

Falar em estratégia significa realçar um tipo de olhar e de ação sobre as condutas humanas que ultrapassa o objeto e a ação na qual se opera, podendo ser empregada para estudar qualquer tipo de conduta, em qualquer âmbito ou campo de trabalho, bem como na prevenção das dificuldades.

Na estratégia clinica a comunicação não tem como objetivo unicamente conhecer o paciente, mas também promover benefícios sob a forma de mudanças favoráveis ou prevenção das dificuldades. Aqui a reflexão e a ação se encontram associadas, de forma que; ver, pensar e agir configuram o que Ulloa denomina “unidade de operação” e seu manejo tem relação direta com o estilo pessoal do psicólogo e por isso guarda um caráter artesanal, porém é necessariamente uma atividade cientifica pois está baseada em um modelo teórico com premissas e hipóteses.

Assim, em nossa opinião a Psicologia Clínica se caracteriza por ser uma forma particular de ver, pensar e agir sobre as condutas humanas, apoiados em técnicas e recursos específicos.

As Psicopatologias

A palavra psicopatologia é formada por diferentes raízes gregas que se compõem da seguinte maneira: psyché significando alma, pathos - sofrimento, paixão, moléstia e logos - discurso ou doutrina.

A psicopatologia se constitui como uma disciplina que integra vários campos de estudos, dentre os quais podemos citar: o médico, fisiológico, psicológico, psicanalítico, estético, linguístico, literário, antropológico e jurídico, como cada uma delas vai explicar a patologia segundo sua própria orientação teórica, quando houver um tratamento os métodos para abordar as psicopatologias irão variar muito. Por isso podemos dizer que as psicopatologias são caracterizadas pela diversidade. E por se tratar das patologias e disfunções psíquicas em todos os seus aspectos, frequentemente é necessário ter que se recorrer também a outras disciplinas das ciências humanas.

Entre as ciências que tratam da mente humana, a Psiquiatria e a Psicologia nasceram nos séculos XVIII e XIX e a Psicanálise chegou um pouco depois, entre os séculos XIX e XX, mas todas têm um berço comum, a Europa Central. A Psicologia teve origem nos laboratórios de Wundt em Leipzig, com sua pesquisa sobre as percepções e sentimentos e a Psiquiatria, termo cunhado pelo médico alemão Johan Christian Reil em 1808, nasceu do trabalho experimental e clínico e das observações sobre os pacientes, a Psicanálise de Sigmund Freud também foi construída com base em seus pacientes, ou seja, nos usos e costumes da burguesia intelectual da Viena do seu tempo.

Numa perspectiva crítica podemos dizer que a partir da experiência clínica, todas elas foram animadas pelo ideal de fazer uma ciência com pretensões universalistas, válida para toda a humanidade, mesmo para aquelas populações a quem eles nunca tinham visto.

O primeiro médico a colocar isto em questão e verificar a validade universal de sua nosografia foi Kraepelin, que viajou em 1903 para Java, onde observou as formas de doença mental que só existiam naquela cultura. A antropologia demonstrou interesse por estas questões nos povos não ocidentais desde os anos de 1898 mas apenas metade do século XX começaram a veicular informações sobre as pesquisas com outras culturas como; a africana, as orientais, a americana e outras.

Desde o ponto de vista antropológico, as psicopatologias podem ser agrupadas de diferentes formas por cada cultura segundo os instrumentos cognitivos e interpretativos elaborados em seu interior, e esta operação de interpretação variará com o passar do tempo, modificando-se, transformando-se de acordo com as mudanças ou as evoluções daqueles instrumentos, portanto, qualquer psicopatologia é cultural, variando conforme o espaço e o tempo.

Seguindo a mesma perspectiva, quando atendemos um paciente, para além das particularidades biológicas, deveríamos percebê-lo como parte de um organismo maior que compreende o grupo social onde está inserido, ou seja, segundo esta perspectiva a dimensão biológica se enlaça com a dimensão cultural, histórica e ambiental, desta forma a psique deixa de ser percebida como uma propriedade do sujeito, e passa a ser vista como parte de uma dimensão mais ampla que o compreende.

Assim ao ampliarmos nossa perspectiva perceberemos que as Psicologias ou a Psicanálise se revelam apenas como sistemas particulares entre muitos outros, sendo produto de uma história especifica, fruto de complexos processos sócio-econômicos, políticos e culturais, e que estudam e tratam aquilo que elas mesmas auxiliam a instituir por meio de suas ações interpretativas e terapêuticas.

A postura profissional

Por este motivo acreditamos que no campo dos transtornos mentais deveríamos também ouvir aos antropólogos, sociólogos, filósofos, bem como aos outros personagens especializados que operam neste campo nas diferentes culturas, deixando, portanto, de ser um diálogo exclusivo de médicos, psicólogos ou enfermeiros psiquiátricos.

Em nossa opinião a função do profissional da área da saúde mental é relativizar seu saber padronizado e atravessado por valores, as vezes absolutos, que são resultados de processos sócio-histórico-culturais e escutar/dialogar mais, tanto com os seus pacientes - posicionando-se diante deste de forma respeitosa, resgatando a sua condição de sujeito - quanto com os demais profissionais que fazem parte da equipe de cuidados, humanizando assim as relações.  

PARA SABER MAIS:

Mareike Wolf. La psychopatologie et ses methodes, Colection "Que sais je?", Paris, PUF, 1998.

François Laplantine. Aprender Etnopsiquiatria. Brasiliense. São Paulo. 1994. 

François Laplantine. A antropologia da doença, Martins Fontes, São Paulo, 1991.  

Código de Ética Profissional do Psicólogo 

Toda profissão define-se a partir de um corpo de práticas que busca atender demandas sociais, norteado por elevados padrões técnicos e pela existência de normas éticas que garantam a adequada relação de cada profissional com seus pares e com a sociedade como um todo.   

Um Código de Ética profissional, ao estabelecer padrões esperados quanto às práticas referendadas pela respectiva categoria profissional e pela sociedade, procura fomentar a auto-reflexão exigida de cada indivíduo acerca da sua práxis, de modo a responsabilizá-lo, pessoal e coletivamente, por ações e suas conseqüências no exercício profissional. A missão primordial de um código de ética profissional não é de normatizar a natureza técnica do trabalho, e, sim, a de assegurar, dentro de valores relevantes para a sociedade e para as práticas desenvolvidas, um padrão de conduta que fortaleça o reconhecimento social daquela categoria.

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